Gutyerrez Oliveira Monteiro
Rosa Neves Monteiro
Gutyerrez Filho
O Menino Virtual
&
OUTROS CONTOS
Editora ÁGAPE
2ª Edição,
Manaus, 2020
Copyright 2020 by Gutyerrez Oliveira
Monteiro
Vendas 92 994496404- 92
991410854
Projeto gráfico
Estúdio de Artes
PERSONA
Rua JOÃO CAMARA 54 QD 373
Núcleo 16 novo Aleixo
69098-320
Revisão: Gutyerrez Filho
_______________________________________________________
Monteiro, Gutyerrez Oliveira, 1955- O Menino Virtual e
Outros Contos / Gutyerrez Oliveira Monteiro, Rosa Neves Monteiro e Gutyerrez
Filho- Manaus - AM Editora Ágape,
2020.vi, 78 p.; 21 cm.
ISBN: 97-885-7828-433-6
1. Literatura. 2. contos brasileiros . Título.
CDD B869.31
CDU
_______________________________________________________
Permitida reprodução desde que mencionada a fonte
Agradecimentos
Gutyerrez Oliveira : Ao meu Senhor Deus honra e Gloria por ter dado-me esse sonho real, esse livro-filho,genético e primogênito dos muitos que virão. A minha esposa Rosa Neves , filhos e netos que pela união, me transformarão em esposo e pai de amor.Aos meus irmãos Pintos & oliveira monteiro. Aos meus amigos professores, leitores e alunos de todas as escolas das cidades e do interior do Brasil.A memória de minha avó Maria Candida Ramos de Oliveira (professora das primeiras letras) A minha mãe Laide Ramos de Oliveira. Ao meu pai Silvino Diniz Pinto com saudades e lembranças.
Rosa Neves : Meus agradecimentos são para o meu Deus, meu criador e mentor, pois tudo o que tenho, o que sou e o que sei foi Ele que me concedeu.
Gutyerrez Filho : A toda a minha família, base do meu alicerce, e fonte inicial de minhas inspirações. A Sylvia Aranha e seu olhar carinhoso sobre essa obra e a todos da Associação Dom Jorge Maskell.
A todos os meus amigos que ainda estão por aí (FBF, DELTA-x-a -quinta EGS, MAG, Perrys, Lupércio, pepetos e pepetas).
A todos aqueles que não mencionei aqui, mas que acreditaram nesse sonho. E também a todos aqueles não acreditaram pois me desafiaram a provar que estavam errados. Ninguém enxerga borboletas em lagartas.
Apresentação
É difícil escrever a respeito
de um livro composto por três autores: pai, mãe e filho. Embora com estilos e
inspiração diferentes, os três têm algo em comum: uma grande sensibilidade.
Gutyerrez Pai, fala da
floresta, do rio, da sua infância feliz, povoada das fantasias das histórias de
Aladim e Ali Babá. E, ao lado das maravilhas da natureza nos oferece contos
sobre o mundo virtual, que ao mesmo tempo limita ou amplia a nossa visão da
realidade, conforme a maneira como nos utilizamos das novas técnicas.
Em Gutyerrez Filho, sentimos
uma grande preocupação com o social, com os problemas da juventude e no seu
conto “Chico e o Mundo”, uma ânsia de liberdade, uma busca da borboleta azul,
“porque tudo o que ele queria era ver o mundo”.
Rosa Neves nos leva à “Fazenda
Segredo” onde passou a infância e onde se apaixonou por um porquinho, e como
criança que era, não podia compreender como o animalzinho preferia a lama a uma
almofada cheirosa que lhe era oferecida.
Os três autores são estreantes,
promessa de outras obras, que com certeza virão enriquecer nossa literatura.
Sylvia Aranha Itacoatiara 29 de
novembro de 2011(Primeira edição)
Sumário
O Menino Virtual
Gutyerrez Oliveira
Sonhos de Lata
Gutyerrez Oliveira
Outro Conto do rio
Gutyerrez Oliveira
Ônibus de lata
Gutyerrez Oliveira
Eu era feliz e não
sabia
Gutyerrez Oliveira
Uma historia da
floresta
Gutyerrez Oliveira
Café Tremido
Gutyerrez
Oliveira
Noturno no
Seringal
Gutyerrez Oliveira
Mais um dia
Gutyerrez Filho
A Loja de Amigos
Gutyerrez Filho
Chico e o Mundo
Gutyerrez Filho
Vozes Silenciadas
Gutyerrez Filho
Acidente na Avenida
Gutyerrez Filho
Porcos na Alma
Rosa Neves
Um dia na enchente
Rosa Neves
O MENINO VIRTUAL
Gutyerrez Oliveira
Ele acorda tarde
pela manha. Pois fica acordado a noite toda. Sempre navegando... Navegando...
Navegando...
Ele não dorme
tão bem a noite, porque sente muito frio e insônia. Logo depois de acordar,
liga seu computador e a moça, a empregada da casa, leva o seu x-burg de café da manhã. Sua comida
predileta. Ele suja o teclado com maionese, pinga refrigerante no mouse. Mas
nem percebe. Não tem tempo pra esses detalhes corriqueiros. Enter... Enter...
Enter... Um clique e um novo mundo aparece
. A vida é mais fácil assim.
Entra na net, começa navegar distante se esquece
de voltar para almoçar... Seu corpo já nem sente fome, e emagrece sem que ele
perceba, e adoece sem que ele perceba. Sua epiderme é clara demais, nem parece
de verdade. Ele nunca sai ao sol. Parece um vampiro. E o seu cabelo é tão
desalinhado, tão desajeitado, tão mau-cuidado. Ele nunca penteia! No pequeno
mundo do seu quarto ele voa pelo infinito do universo e dá uma volta completa
na galáxia. Para ele, suas idéias
modernas são inalcançáveis, intransponíveis, já nos ultrapassou anos luz. Ele
tem amigos na Ásia, no Japão na Europa, Londres e viaja atravessando como um raio
para Nova York, visita a Estátua da Liberdade, passeia pelo Havaí num instante
e surfa nas ondas da pororoca, na foz da ilha de Marajó. No momento seguinte vai a Paris,
visita a torre Eiffel, vai até o Oceano Pacífico nas ilhas de Apia e
Pago-Pago...
Ele está cheio
de amigos por todo o mundo. Mas está sempre tão sozinho. Ele tem uma namorada
linda que mora do outro lado do mundo, mas nunca a conheceu pessoalmente. Só
pela tela do monitor. É uma namorada virtual que se apaixonou por uma foto que
nem é dele. Ele nunca sentiu o sabor do beijo de uma garota
de verdade, a delícia de um
aperto de mão. Mente para si mesmo que sim. Faz tempo que não sente o calor de
um abraço, porque não tem mais tempo de andar pelas ruas e praças, sentir a brisa no rosto e ver o pôr do sol.
Ele nem lembra
mais do próprio nome de tantos fakes que já criou na net. Não nota as pessoas a
sua volta. Afinal o que haveria de interessante nelas?
A sua mesada permanece intocada na cômoda
sobre o quarto. Ele nem ouviu quando seu pai lhe disse sobre isso há três dias.
E quando algo dá
errado. Quando o software, o hardware do computador entra em pane... Sua vida também!...
Ele fica desanimado, já não sorri tanto. Sente-se entediado. Quer deletar
aquela vida, aquela casa, quer ir para longe, pra qualquer outro lugar, onde
haja um computador funcionando com internet, que o leve de volta pra sua vida
virtual.
“A vida virtual
é mais fácil” diz ele “dá pra bloquear aquilo que te incomoda. Se você comete
um erro, aperte ctrl + z e tudo estará bem. Em vez de escrever você pode copiar
e colar, as idéias que quiser e de onde quiser. Na internet você faz o que
quer, você é quem quiser e quantas vezes imaginar ser . Se você tem algum
defeito, ajeite no fotoshop. Dois clicks e você está dentro, um Click e você
está fora. O que há de mais real no universo?”
No seu mundo não
existe tédio somente downloads, downloads e mais downloads... E aí num instante
as músicas mais ouvidas, as fotos, surgem, novos cenários, novas paisagens,
novos filmes do momento.
Click. A sua vida é um novo papel de parede na
área de trabalho.
Click. Sua vida
é um flash antenado & plugado no mundo.
Sempre seu pai
lhe chama atenção. Um dia lhe disse:
-Acorda menino!
Sai desse computador. Vai dar uma volta. Conhecer amigos de verdade! Sai desse
mundo virtual. Você não quer aprender nada sobre a vida real?
Ele sorri
desinteressado e pergunta:
-Onde é o site
que eu baixo algo sobre isso?
***
SONHOS DE LATA
Gutyerrez
Oliveira
A mulher entrou
na sala e viu o seu companheiro de malas prontas, varias bolsas de viagem
arrumadas, pronto pra partir. Ela estranhou aquilo.
-Vai viajar?
-Não- disse ele
frio como sempre.
-O que são essas
malas então?
-Eu estou indo
embora!
-Como assim indo
embora?
Então ele
começou:
-O que eu vou
lhe dizer agora vai soar como uma desculpa esfarrapada, mas não é nada disso.
Eu tenho aqui um cheque de um milhão de dólares oferecido pela Empresa X. Por
danos morais ou por qualquer outro tipo de danos devido à experiência que você foi
submetida
-Como assim, do
que está falando?
-Assine aqui -
pediu o marido lhe dando um papel um cheque e uma caneta
A mulher segurou
a caneta e tentou ler as letras miúdas e ele continuou:
- Estou indo
embora porque não sou como você. Entenda, digo isso em todos os sentidos. E no
sentido literal da palavra. Eu não posso sentir como você sente, não posso
sorrir como você, ficar alegre, ficar com raiva ou ter medo. Quando eu ajo de
tal forma, na verdade tudo não passa de simulações feitas a partir da minha
programação.
A mulher já não
lia mais nada e prestava atenção estupefata nas palavras do marido.
-Eu não estou
entendendo Marcos? Há outra mulher, entre a gente, é isso?
-Não, não é isso
-É um homem
então?
-Não. Você não
está entendendo!
-Não, não estou!
Por favor, me explique! Isso é alguma brincadeira? Porque se for, eu já cai na
pegadinha ouviu? Por quê? Por que você está me deixando Marcos?
-Eu não sou
humano como você Marta!...
-O quê?Não
acredito no que ouço!
- Sim Marta! Eu
sei que é difícil mas, eu sou um protótipo especial de engenharia robótica da Empresa X, acho que você já deve ter visto nos comerciais. A empresa X trabalha com tecnologia de eletrodomésticos.
-Eu sou um Autômato.
Fui criado secretamente, sou uma máquina que simula emoções. Pertenço a uma
série de quinhentos protótipos para teste enviados para interagir com a
sociedade. Aparentemente temos todas as funções humanas, mas se você prestasse bem
atenção perceberia que eu nunca usava o
banheiro, ou me alimentava.
-Você esta dizendo
que é um robô? Isso é ridículo, Marcos! Não me faça de palhaça, se está
arrependido de ter vindo morar comigo não precisa usar essa desculpa idiota
para ir embora! Eu nunca te pressionei a nada. Aquela conversa de ontem a noite
sobre casamento foi só uma conversa como qualquer outra Marcos! Eu não estou te
pressionando a nada! Você está se sentindo pressionado é isso? Não precisamos
casar droga! Eu só toquei no assunto e...
Marcos então
começou a emitir vários barulhos mecânicos, alarmes sonoros e intermitentes, girou
o pescoço em trezentos e sessenta graus como a mulher possessa do filme O exorcista.
-Mas o que...
-É o que estou
tentando lhe explicar Marta. Você ajudou involuntariamente a Empresa X no teste
dos protótipos, durante esses três meses que estive com você. Por isso está
sendo indenizada. Quando eu ia para o trabalho, na verdade eu ia até a unidade
laboratorial da empresa localizada nessa área aonde era feito manutenções em
mim. Assine esse papel, se você sentiu-se
prejudicada sentimentalmente ou
moralmente, você será indenizada pela Empresa X, Marta.
Marta chorava,
chorava e não queria ser consolada. Nem mais
saber de nada.
- Eu assino! -
soluçava ela!- Apenas vá embora daqui sua máquina sem sentimentos! A Empresa X
usa as pessoas! Usa o sentimento das pessoas pra crescer! Que tipo de empresa é
essa?
- Devido à
competição em alta escala que está havendo entre a nossa empresa e a Empresa Y,
que também teve a mesma idéia de fazer protótipos cibernéticos! Por isso tivemos que tomar tal atitude! A
Empresa Y também fabricou protótipos, Marta. E eles podem estar em qualquer
lugar nesse momento fingindo serem pessoas. Não podemos deixar que a empresa Y
ganhe a concorrência da nossa empresa. Temos que aperfeiçoar os protótipos em
relações pessoais o quanto antes. Pra isso que fui programado.
- Então todos
aqueles nossos sonhos de viajar pra Nova York, Londres, aquilo foi tudo
mentira? – dizia ela ainda olhando para o robô esperando que tudo aquilo não
passasse de uma pegadinha do Faustão.
- Sinto muito
senhorita, mas “latas” não têm sonhos!
- Disse o robô, referindo-se
a si mesmo.
E antes de
partir certificou-se de que Marta
assinaria o papel e teria aceito o cheque. Partiu para sempre dali, com todas
as malas de roupa e com todo o amor e tempo que Marta havia investido.
Depois disso
Marta permaneceu sozinha chorando na sala por algum tempo. Alguns minutos
depois ela foi até a porta certificar-se
que o marido-robô havia mesmo ido embora, então quando percebeu que estava
sozinha limpou as falsas lágrimas e sorriu.
-Há! Há! Há! Que
idiota! - gargalhou ela olhando o cheque e o papel assinado de indenização.
-“Latas não tem
sonhos!”. Você é que pensa! Eu vou para
Nova York com esse hum milhão de dólares - disse ela. – Mas antes preciso
ajeitar essa engrenagem aqui!
Dizendo isso ela foi para um quartinho secreto
escondido, incrustado na parede, onde havia uma mala com ferramentas especiais de alta tecnologia , retirou de lá uma chave especifica e começou a desapertar um parafuso do seu
braço. Em seguida girou o pescoço em trezentos e sessenta graus certificando que suas engrenagens estavam boas
ou precisavam de óleos. Depois retirou seu braço de fibra
eletro- mecânico pingou óleo e
uma graxa especial nas engrenagens aonde
havia o emblema de marca de fabricação da Empresa Y.
***
OUTRO CONTO DO RIO
Gutyerrez
Oliveira
O barulho da
máquina no barco que subia o rio invadia o silêncio da floresta naquela manhã.
Rasgava passagens entre os ramos verdes, caniços e cipoais, e não mais voltava.
Se perdia pelos confins da mata. Uma parte do ruído penetrava entre as árvores
do igapó, despertando a Matinta- Pereira, que dormia dentro de um tronco oco e
que tinha assobiado a noite inteira assustando os ribeirinhos que moravam
naquelas bandas.
O curupira
montado no porco queixada, liderava um bando
de caititus que passavam pisoteando e quebrando a mata virgem,
destruindo e levando tudo que encontravam
pela frente. No alto das árvores, a jaguatirica e os macacos que ela
perseguia pararam distraídos e curiosos por um instante, ouvindo o som
estrondoso da manada lá embaixo, que se misturava ao som que vinha do barco. Os
animais tentavam manter entre eles, um distanciamento prudente, preparando
saltos entre os galhos na precisam de uma fuga.
Outra parte do
som ia de encontro às árvores e barrancas de terras caídas na margem do rio e
retornavam para o barco junto com a
canção das cigarras-ninfas que naquela hora do dia teciam o verão.
Naquele momento,
me sentindo o senhor daquelas paragens, eu, curumim estava deitado de bruços em
cima do toldo da embarcação em movimento, olhando o rio com um certo olhar de
jovem filosofante. Me deleitava com aquele quadro vivo e conseguia ver a
minha volta detalhes que pareciam
tão insignificantes para o passante, mas tão nítidos para mim. Um pássaro voando baixo sobre o rio e de
vez enquanto um mergulho no profundo das águas, logo a seguir, lá estava ele
com um peixe no bico. Outros pássaros nas árvores, pairando, beijando uma flor;
o beija –flor. Uma borboleta colorida voando em zigue-e- zague. Uma flor que
não estava ali na viagem passada. Todos aqueles detalhes não me escapavam a
visão. Eu imaginava uma semente
germinando ,brotando, rasgando o chão lentamente de dentro para fora, buscando
a luz para ver aquele dia, fazer parte da vida, participar, receber a brisa
suave em suas primeiras folhinhas. Aquela bromélia que na viagem passada
começava a brotar, agora já estava adulta, completa, perfeita... Linda.
Meus olhos
vasculhavam o horizonte entre o céu e o rio; que se encontravam também por
detrás das matas e cabeceiras.
Ao longe, um
ponto negro no rio, que crescia ao se aproximar, me chamou atenção. Ficava
acompanhando até chegar bem perto e verificar com surpresa que era um imenso
loyde brasileiro de turistas, ou um cargueiro que vinha de muito além do mar...
Aquilo me deixava assustado, eu perguntava como aquele pedaço de cidade
flutuante, edifício com vários andares conseguiu chegar até ali, e passar por
nós! Em que outro local, ou país aquele “pedaço de cidade” (eu me referia ao
navio com vários andares como sendo um edifício ou um pedaço de cidade) vai se encaixar como um quebra-cabeça?
Ainda
em cima do toldo sentindo aquela brisa fria, o pensamento me transportava para
o momento de alguns dias atrás em que eu
caminhava na praça do largo de São Sebastião em frente ao Teatro Amazonas,
saltando e caminhando sobre os ladrilhos brancos e pretos em forma de ondas que
simbolizam o encontro das águas ou as grandes ondas dos mares do meus sonhos os
quais me levavam direto ao monumento central da praça, “Abertura dos Portos”.
Onde eu menino, em um piscar de olhos saltava nos convés daqueles barcos de
bronze (Europa, Ásia, África e América) e viajava imediatamente para Argentina, Panamá,
Espanha, Portugal, Inglaterra, e de barco em barco para cada país do mundo
conforme o meu pensamento.
Sentado no
convés daqueles barcos eu me imaginava
um nauta sonhador que conhecia o mundo inteiro, um capitão! Um lobo do mar.
Fazia a primeira
viagem para as Américas. Logo a seguir passava através da marquise para um
outro navio pirata ou corsário inglês,
hasteava a bandeira negra com os ossos e a cabeça da caveira. Agora eu era um
corsário descobridor dos sete mares a serviço do meu rei. Viajava uma nova
aventura a procura de um mapa do tesouro perdido pelo terrível pirata barba
negra em uma ilha distante.
E num instante a
visão da água sendo separada pela proa do barco que formava um bigode constante na proa afastando as águas e
removendo obstáculos da passagem me faziam voltar a realidade daquele rio o
qual eu estava navegando agora.
O barco correndo ao lado das margens que iam
ficando para trás, recebiam o banzeiro que lavava as pedras e argilas
dali. De repente uma casa, um
cercado na curva do rio, curumins e
cunhãtas correndo sobre o barranco de terras caídas para ver o barco subindo .
Lá do alto faziam acenos dando adeus. Talvez em cada coraçãozinho ali, batia
uma vontade de ir também, naquela viagem... Mas iam ficando para trás, ficavam
para trás...
Logo a seguir, a
cerca do curral, alguns bois pastando nos olhavam sem ligar, o mais importante
para eles era o remoer e fazer o movimento do queixo retirando o supra sumo do capim. A seguir, a visão do laranjal
imenso que se perdia dos olhos na imensidão dos campos. O homem no roçado
próximo a margem parava de roçar, retirava o chapéu, limpava o suor da testa com
a manga comprida da camisa , parando
alguns minutos, mais para descansar e renovar as forças enquanto olhava, do que pra acompanhar o barco que subia o
rio cortando o silencio da floresta.
***
Ônibus de lata
Gutyerrez Oliveira
Na verdade dos
nossos sonhos estão tantas historias da nossa vida. Pensamentos, lembranças e saudades de vivos momentos vividos na infância, que nos fazem outra vez pequeninos no tamanho mas,
gigantes no viver outra vez! São tantas coisas belas que tinham sido
esquecidas, arquivadas,talvez no sub consciente da alma, umas muito
reais e outras sonhadas que
jamais esqueceremos , como; correr pela
praça , brincar de pega-pega , pular amarelinha , apertar campainhas nos
portões e se esconder , atirar bolas de
papel nos colegas na sala de aula,
sentir o cheiro das flores e
admirar a confecção de todas as coisas feitas por nosso Deus criador .
Vou contar lhes uma dessas histórias, foi
assim:
Quando era
menino, ganhei de presente um pequeno ônibus de lata. Eu o amei desde o
primeiro dia, desde o momento que o vi.
Tinha sete anos
de idade, o tempo passou, mas parece que foi ontem. Guardo ainda na lembrança todos os momentos e
detalhes daquele encontro. Lembro até
dos passos apressados que eu era forçado a dar (ia chorando) pois estava sendo levado pela mão de minha
mãe que caminhava apressada para pegar a
roupa lavada e passada na casa de D. Chiquinha , uma senhora de cor que vivia
do oficio de lavar roupas.
Quando cheguei na porta da sala, ali estava ele ; em cima da mesa de jantar ,
limpei as lágrimas dos olhos e me
apaixonei!
Comecei a
inspecioná-lo.
Como era
diferente! Era feito da metade de uma lata de solvente para tintas (tinner)
cortada de comprido, nas laterais foram feitas janelas sem vidraças e duas
portas; dianteira e traseira. Fiquei olhando para dentro dele pelas janelinhas,
notei cadeirinhas bem arrumadas forradas de napas posicionadas umas próximas a
janela outras para o corredor do centro do ônibus. A cadeirinha do motorista,
alavanca de marchas (câmbio) retrovisores internos e externos, degraus na porta para a
subida, isso tudo pronto a servir minúsculos passageiros
(liliputianos) da minha imaginação.O
chão do ônibus pintado de uma cor alumínio prata, imitando o metal. A cabine
fora fixada por sobre uma carroceria com quatro rodas que prendiam em dois
eixos, rodas essas feitas de madeiras
com serra “tico-tico” contornadas e lixadas com acabamento perfeito para as pistas de rolamentos das ruas do meu pensamento. Lembro que era
pintado de vermelho fosco com listas pretas nos pára-choques, tinha uma
plaquinha com número e tudo para ser identificado com licença pelo departamento
de transito e uma inscrição nas laterais que dizia:
Viação “Nova Aliança”
Paulo, um menino de aproximadamente 14 anos filho
único de D. Chiquinha, rapaz de bons modos, gestos calmos, um pouco retraído,
encontrou-me analisando sua “obra prima”, contou-me que ele fizera aquele
carro não para brincar , mas para vender
e ajudar sua mãe nas compras de casa . Eu quis ficar com aquele ônibus, pedi a
minha mãe que compra-se ...
Depois de algumas recomendações quanto ao meu boletim
escolar, terminou comprando. Paulo ajudou-me a amarrar um fio de barbante no
pára-choque frontal e fui puxando o meu
presente carregado de passageiros para a ilusão do meu mundo de criança feliz .
O tempo passou rápido e o que estava previsto para
acontecer aconteceu ...
Eu cresci, me enamorei de muitas outras coisas pela
vida, só não consigo lembrar para onde e como sumiu meu “ônibus
de lata.”
Um dia desse entrei numa loja , fui confrontado pelo
espanto com essa lembrança outra vez ; porque encontrei na prateleira da vitrina
um outro ônibus com a mesma cor , sendo de plástico e pneus de imitação
de borracha ..
Eu o comprei...
Hoje quando escrevo, sinto lembranças e saudades
viajando no tempo das recordações maravilhosas da minha infância, quando
reconstituo as brincadeiras com os amigos no quintal da casa sombreada de
árvores , onde nasci, fazíamos ruas , pontes , estacionamentos e garagens
de areia e pedrinhas de seixos
onde passávamos com o ônibus e outros carros fabricados com latas, latas vazias
com formatos de tratores e amassadeiras
...
Hoje quando escrevo, vejo outra vez o tempo que passou
e o meu ônibus de lata... O menino que
havia em mim, ainda existe.
***
Eu era feliz e não sabia!
Gutyerrez Oliveira
As recordações
continuam batendo bem mais forte. Pulsando no coração, tocando a alma saindo na
ponta do lápis para registrar esta saudade. Saudade do eu menino na Manaus da
minha infância, quando eu ia e vinha pela rua monsenhor Coutinho, rua que passa
por detrás da igreja do largo de São Sebastião, onde de 15 em 15 minutos, ainda
hoje o relógio da torre badala a hora certa.
Naquele tempo eu
morava nessa rua. Tinha seis anos de idade, estudante inicial empolgado com a
mágica das primeiras letras, que ao ajuntá-las,
formavam palavras que nos
permitiam voar e penetrar no meio
das historias de livros que continham
sonhos que nos transportavam para qualquer lugar.
Um dia voei em
um tapete voador com Aladim, sua lâmpada e sua namorada, por cima de Bagdá, e
vi assustado as torres da cidade em formato de abóboras gigantes , quase
colidimos com algumas delas. Outra vez fiquei tremendo de medo quando ao
caminhar com Ali – Baba, ouvimos um tropel de cavalos e tivemos que nos
esconder por detrás de uma moita enquanto o chefe dos quarenta ladrões gritava
“Abre te Sésamo” e aquela imensa porta
na rocha foi se abrindo sem fazer nenhum barulho , então todos os ladrões
entraram, o chefão falou agora “ Fecha
te Sésamo” e a porta no meio da rocha voltou ao normal como se
nada tivesse acontecido, gravamos as
palavras mágicas pronunciadas pelo seu maioral , então quando os ladrões foram embora, eu e Ali-
Baba nos aproximamos da rocha. Ali pronunciou as palavras mágicas e a porta se
abriu, vimos então no esconderijo dos ladrões
a maior quantidade de tesouro que os meus olhos já puderam ver.
Vi também outra
cena horrível, a vovó da chapeuzinho vermelho ser retirada viva da barriga do
lobo mal como se fosse um parto cesariano sem anestesia, operado por um caçador
brutamontes.
Outro dia, ao
caminhar por um deserto e chegar a uma cidadezinha, vi o Barão de Munchausen
tentando desengatar o seu cavalo que
ficou preso na torre campanário de uma igreja .
“E assim
eu vivia sonhando com as histórias das mil e
uma noite”.
Estudei no Jardim da infância do grupo escolar Barão do Rio Branco,
localizado na Avenida Joaquin Nabuco quase em frente ao Hospital Beneficente
Portuguesa, com seus jardins bem cuidados
e apinhado de plantas e mangueiras, que onde, ao sair da
escola mais cedo, eu e meus colegas de aula colocávamos visgos com leite de
jaca para pegar curicas e periquitos barulhentos, ou apanhávamos mangas de
bole-bole.
O
jardim da infância do meu grupo escolar, era ladeado de muitas flores, plantas
ornamentais, Avencas, Lírios, Rosas,
Dálias, as quais a nossa professora mais bonita falava que não arrancássemos as
folhas e flores porque senão as
arvorezinhas choravam e ficavam tristes por ter os seus pedaços arrancados.
Imediatamente eu construía na minha fantasiosa mente de menino maluquinho,
aquelas plantas de narizes e orelhas arrancadas, com lagrimas nos olhos
correndo atrás de nos, querendo nos
pegar para se “vingar”. Durava pouco esse pensamento, porque logo a seguir me
distraia com a forma divertida das letrinhas desenhadas pelas nossas
professoras. As letrinhas tinham mãos e pés, algumas usavam vestidos com
flores, outras vestiam roupas e sapatos de meninos e ficavam coladas nas
paredes da sala de aula.
Tinha
uma menininha muito linda, da minha idade, que sentava na mesma mesa que eu,
fazíamos atividades cobrindo as letras e formando nomes de gente
e coisas, estávamos sempre juntos,
fabricávamos bonecos e carrinhos
com cera de modelar, ela gostava de modelar corações. Um dia moldou um azul
outro cor de rosa e disse com aquela voz
linda de criança feliz , esse e o seu e o meu coração!
Daquele dia em diante eu me apaixonei
muito mais! Hoje lembro dela com muito
carinho. Crescemos, fui para outra escola,
ela se perdeu de mim!
Alguns
anos depois, quase terminando o equivalente ao ensino fundamental, ganhei um
radinho de pilha da marca Hitachi. Um dia, derrepente começou tocar uma música
da época do meu jardim da infância, que dizia assim...
“Que saudades da professorinha que me ensinou o Be-a- Ba
/ onde andará ‘ marianinha’
Meu primeiro amor onde andará
Eu igual a toda petizada quantas travessuras eu fazia
/ jogos de botões sobre a calçada
Eu era feliz e não sabia!
Aos domingos missa na matriz /da cidadezinha onde eu
nasci
Há meu Deus eu era tão feliz...”
As recordações chegam de enxurrada como uma cascata
contínua, mas não da pra desaguar tudo aqui, agora!
Quando
inicio escrevendo essas memórias, estou sentado em um banco da praça na orla próximo aos mangueirões de onde
mostra o rio Amazonas que não para de passar em frente a essa cidade linda chamada
Itacoatiara. Não só a cidade canção ,
mas a cidade que me encheu de inspiração e despertou um escritor escondido a
tanto tempo nas bancadas de consertos eletrônicos entre transistores,
resistores, capacitores e circuitos integrados , mesas e berços de testes elétricos nos galpões
das fábricas do distrito industrial de Manaus.
Graças ao Eterno, hoje posso ver
essa paisagem linda e um barco que passa
no rio, parece que o seu motorista ou o
“pratico” esta bastante apaixonado e a música diz no seu radio ou toca CD “ Que hoje a tempestade já passou e nesse rio de águas calmas eu vou deslizar e
consolar meu coração”.
Uma historia da floresta
Gutyerrez
Oliveira
Sebastião já contava seus 18
anos de idade. E desde pequeno nunca saiu muito longe do lugar onde nasceu. Jamais foi a cidade mais próxima da sua casa . Em tempo algum fez questão de
manter contato com o mundo lá fora . Um
dia alguém falou de rádio pra ele ,contou que era uma caixa quadrada que falava
, tocava e cantava melodias alegres e
apaixonadas, falaram também de um aparelho de televisão, que as pessoas
apareciam bem miudinha dentro duma caixa de vidro quando se ligava um botão , porém ele nunca
teve oportunidade de ouvir, nem ver o
outro. Quando ele ia pescar, no silencio da floresta ficava matutando no que as pessoas
contavam pra ele.
- Como aquelas pessoas conseguiam entravam naquelas caixas , será
que era um mundo diferente de pessoas
pequeninas ? E ficava cismando. Mas, a fisgada do peixe no anzol e a
esticada na linha fazia ele abandonar
esses pensamentos. Era pescador desde nenê “Zinho” de colo como ele mesmo
costumava dizer, ainda no colo de sua mãe ele fisgou “um baita” tucunaré .Vivia
do rio é bem verdade. Morava com seus
pais numa cabana ali próximo as margens
do rio Caru ( afluente do rio Urubu- AM ). Conhecia quase tudo do rio e da
floresta. Seu pai e sua mãe a muito
tempo se estabeleceram naquele lugar.
Mas, Sabba do Caru
como lhe chamavam , só vivia embrenhado nas matas caçando e pescando ,
que nem
um bicho do mato . Não tinha documentos de identificação. Um dia passou por lá uns agentes da FUNAI. Cadastraram Sabba do Caru, como índio brabo do mato.
O tempo foi passando muito rápido, a vida de
Sabba não tinha pressa – Correr
pra que – dizia ele. Um dia comprou uma
canoa grande para facilitar seu trabalho
na pesca e outras coisas da floresta. Com muito custo comprou um motor rabeta e
foi tocando a vida. Casou com uma cabocla do rio, muito trabalhadora que o ajudava
bastante. Quando seus filhos começaram nascer e crescer, mandou fazer
para ele um grande batelão (barco grande
de madeira ) alguém disse para ele.
- Sabba,por que você não
pede empréstimo no banco e compra um motor potente para este batelão. Para
isso, Sabba do Caru, teria que ir a cidade com seus documentos ao banco e fazer
o tal empréstimo. Sabba não gostava da cidade , nunca foi índio , mas era
matuto , homem do mato, vivia bem assim, a cidade lhe causava arrepios , ouvia falar coisas assombrosas de lá – Mais teve
que ir lá cuidar da documentação para comprar o motor para o batelão, naquela
época 40 anos se passaram (nem mais se
lembrava) guardava com ele como segredo
sem muita importância, o
cadastramento da FUNAI . Foi o jeito ir
até a cidade . Ficou frente a frente com o rapaz do escritório que verificava o
seu documento no computador. Derrepente
o rapaz começou olhar pra ele e pro computador , encarava Sabba do
Caru . Que já estava desconfiado e com vontade de perguntar o que estava
acontecendo.
O rapaz do computador olhou para ele e disse – A
máquina, esta dizendo que o senhor não
pode emprestar dinheiro do banco porque o senhor é índio! Sabba se assustou de uma forma que não
acreditava. Perguntou quem contou pra
essa maquina que eu era índio? Quem? Quem contou ?
Olhou pra máquina assustado
porque achou que o computador era como
um deus. Como aquela máquina descobriu
um segredo que ele guardava a tanto
tempo e nunca contara pra ninguém! Até porque nem tinha tanta importância!
-Mas, como isso pode ter
acontecido ? Pensando assim declarou:
-Essa maquina é um deus !
Ficou intrigado - Quem conto meu segredo pra ela ? Voltou pro rio Caru sem o empréstimo, contou o caso
pra todas as pessoas de lá -
declarou - Aquela máquina sabe tudo, é como um deus!
***
CAFÉ TREMIDO
Gutyerrez Oliveira
Pra
mim aquilo tudo era folia. O passeio começava quando a vovó Cândida dizia tal
dia vamos viajar, sairemos de Manaus no barco de recreio, vamos descer o rio
Amazonas e passar em frente a cidade de Itacoatiara. Eita! Maravilha! Eu
começava sonhar. Pra mim, a viagem começava ali.
Era
uma líder essa minha vovó! Cuidava de todos os detalhes, ela queria atar as
redes no barco bem cedo pra evitar imprevistos de última hora. Quase sempre
ficávamos todos juntos do mesmo lado da embarcação. Tudo pronto, não falta
nada. Hora da saída. Cordas das redes de dormir atadas. Cordas de amarras do
barco largadas. Começava então a grande aventura tão esperada. O timoneiro do
barco fazia comunicação com a sala das máquinas através da linguagem dos toques
de campainha dando a partida. Algumas manobras para trás, outras para frente.
Marcha de viagem, lá vamos nós.
O
meio do rio bem na frente de Manaus. A cidade é linda vista dali! Era o momento
que eu não gostaria de perder nenhum detalhe daquela visão de começo de viagem,
a margem esquerda do rio, os prédios antigos, os novos, as casas de tijolos e
de barros cozidos, os homens ribeirinhos trabalhando, pescando em frágeis
canoas. Curumins tomando banho no rio, pulando das jangadas de toras amarradas
para as serrarias. Batelões puxados em terra para manutenção. As últimas casas
da cidade iam ficando para trás, a refinaria da Petrobrás com todos aqueles
tanques imensos iam ficando também. Aquilo tudo era fascinante. De repente na
frente e bem perto dos meus olhos, eu podia tocar com a mão uma das sete
maravilhas do mundo(ao meu ver) “o encontro das águas” lugar cheio de mistérios
e encantamentos, lugar de encontro do sobrenatural entre o céu e a terra, as
pessoas diziam muitas lendas daquele lugar de sarapantar cabra macho. O barco
passava naquele momento por cima das duas águas, que se encontravam, se
entrelaçavam, mas não misturavam, sempre foi assim. Lá íamos nós descendo o
rio. Os telhados das últimas casas da cidade se esquivavam dos nossos olhos
pelo meio das árvores. A próxima parada seria a cidade de Itacoatiara.
No
outro dia bem cedo, o momento que eu esperava ansioso nessa viagem, era a hora
de tomar o “café tremido”. Então alguém pergunta, o que é café tremido menino?
Ora, geralmente a mesa onde são feitas as refeições nos barcos de recreios (em
quase todos) ficam posicionadas bem próximas ou por cima da sala das maquinas
onde a trepidação do motor é bem mais forte. Então, com a trepidação da
máquina, tudo ali tremia. O leite, o café, a bolacha, a mão daquele senhor de
idade que não tirava o chapéu de massa da cabeça , o meu apetite tremia, o
sorriso das pessoas tremiam , até o olhar da minha avó Cândida sempre atenta a
tudo, tremia! A alegria de tomar café tremido pela manhã, viajando em um barco
e os meus olhos em contato com a paisagem das margens do rio para mim era o
máximo. O café com leite de gado da fazenda na xícara, ficava trepidando,
tremendo, formando ondinhas. As colheres e copos sobre a mesa também
trepidavam. Na hora de misturar o café com leite, era o grande momento do rio
Amazonas que se misturava com o rio negro, eu bebia aquele rio de café saboroso
acompanhado com fritos de trigo, pãezinhos, macaxeira cozida, roscas de goma,
pés de moleque, mingau de banana com tapioca e outros. Um verdadeiro manjar
matutino que encantava o viajante, (eu em particular) que depois de satisfeito
de todas aquelas iguarias, ficava imaginando aquele café ecológico tremido,
tremendo no meu “bucho”. Depois do café tudo acontecia naquele barco e chamava
a minha atenção, eu ouvia as vozes e saberes daqueles viajantes do rio, lembro
um senhor com mangas de camisa enroladas que ao falar tirava e colocava o
chapéu de palha na cabeça, fazendo graça, contava que na viagem passada, um
bode que vinha amarrado perto de uns alqueires de farinha d’água de repente por
um descuido qualquer, rasgou com a boca as folhas que encapavam o paneiro e
comeu toda a farinha do seu Maíco, que ele levava sempre para vender na
capital. Alguém passou e deu um balde com água para o bode que bebeu tudo,
bebeu estufou e explodiu, foi pirão de bode com farinha para todo o lado –
finalizou ele . A
gargalhada
era geral das mulheres e homens que estavam na rede, menos o seu Maíco que
perdeu a farinha naquela viagem. Então; a conversa continuava, rolava, falavam
mil coisas e mil historias engraçadas ou tristes, eu ficava vendo e ouvindo
cada personagem naquele barco. Mais tarde, pela hora do almoço, viria também o
guisado de paca, a sopa tremida com jerimum, maxixe, batata e quiabo
escorregadio que descia na garganta goela abaixo sem fazer força pra engolir,
que maravilha! A trepidação do motor, o caldo quente gostoso com o novo tempero
do barulho do motor e da cozinheira do barco, se misturavam com as pinturas
naturais das paisagens. Aquela era uma viagem real viajando nos sonhos das
margens do rio, no meio da floresta.
NOTURNO NO SERINGAL
Gutyerrez Oliveira
Naquele
noite tudo estava muito mais escuro do que nas outras noites. Os homens não
podiam ver nada do lado de fora do barracão. A chuva parecia não ter fim,
destilava por cima das árvores de seringueiras caindo gota a gota nas folhas
encharcadas. Dentro do barraco como isolados do mundo, viam o que mostrava a
lamparina com o vento remexendo as sombras assombradas da noite na parede. No
terreiro, um frio de gelo. Mas, por cima das árvores, no meio de toda aquela
escuridão, um olho amortalhado pairava por cima da palhoça vendo e observando
os homens frágeis que pitavam suas parroncas de tabaco para espantar os
carapanãs. A terra tremia, com zoadas de trovão e no negrume da noite riscavam
raios rápidos em ziguezagues de relâmpagos que iluminavam a noite medonha,
mostrando como num flash a silhueta das arvores assombradas. O olho se
aproximava daquele barraco no meio das trevas do seringal.
O
homem na rede, doente de malária, ardendo em febre. A floresta tremia dentro
dele... O delírio era maior que a vontade de viver, e a morte se aproximava bem
devagarzinho na forma, na figura do rosto de sua mãe. E ele conversava falando
com ela no meio de toda aquela escuridão, pedindo que trouxesse alguma poronga
para acender e expulsar aquelas trevas, que devagar, bem devagarzinho [...] estavam entrando, invadindo suas entranhas e
tomando conta de sua vida.
–
Mãe... mãe ... -ele chamava esperançoso...
A
morte lhe sorria bondosa.
–
Mãe... mãe ... É você?
E
ela apenas sacudia a cabeça sorrindo, confirmando ...
–
Mãe, por favor, traz uma lamparina ! Para afastar essa escuridão que esta me
penetrando.
E a
febre aumentando. E a febre aumentando.
Fazia
frio de água da cacimba á boca da noite. Mas ele suava, junto com as nuvens da
tempestade. No delírio, aquelas vozes nas sombras da parede contavam tantas
histórias! Ele lembrava...
Contavam
a história da mãe da seringa, que cansada de ver suas filhas árvores escorrendo
seu leite, colocava á noite um pedaço de espírito mau na rede dos seringueiros,
e os deixava doente.
Os
mais velhos contavam a historia e aguardavam com esperança de que um dia eles
voltariam pra casa e seriam como heróis na sua terra natal. Tudo mentira! Tudo
mentira! Eles jamais voltariam daquele lugar.
Os
deuses da floresta estavam raivosos, eles estavam nos temporais e nos
relâmpagos, e sem misericórdia alguma, se escondiam debaixo das folhagens para
pular de emboscada na roupa do seringueiro, que indo para sua casa, sem
perceber, se escondiam em sua rede de dormir para perturbá-lo á noite com
terríveis pesadelos. A casa de palha e a terra tremiam devido aos trovões.
E
aquele homem continuava a conversar com sua mãe, ouvindo o pio funesto de uma
coruja agourenta, e o gargalhar de um rasga mortalha conversando com sua morte
em forma de sua mãe, vestida de mortalha roxa – respondia da cabeceira da sua
rede para a coruja que se acalmasse, pois em breve ela teria seu defunto. Não
tive-se pressa!
–
Mãe... Mãe... Com quem você está conversando?
E a
morte apenas lhe sorria bondosa.
O
pio daquela coruja parecia uma contagem regressiva para o abandono da vida. Fazia
tanto frio, frio de argila molhada no corpo. A febre ardia tanto. A agonia era
tanta. O delírio era tanto, que ele preferia que o sono chegasse logo dentro de
toda aquelas trevas, naquela hora noturna, soturna da noite!
De
repente, no meio da febre, entre a visão da morte e da vida que minguava,
escorrendo sonolenta entre os seus olhos, aquele homem soube que a sua rede tão
companheira de descanso assim como a rede de todos os outros seus companheiros
lhe serviria de caixão, seria o seu derradeiro invólucro para o apartamento
apertado de cova da terra fria , por isso gritou num delírio de ultima angustia
–Mãe,
não posso me embrulhar... Esse lençol me apavora... E a morte lhe pegou no colo
sorridente e bondosa e o balançava consolando!
Cantando
baixinho uma canção de ninar!
“Meu
filho, não chores senão o dia vai custar a vir. Não vai doer nada , porque
morrer não dói, reza três ave-marias, entrega-te, muda a tua roupa pra dormir,
veste a pijama de mortalha, pois a coruja já parou de piar, agora você já pode
dormir.”
Ele
olha então com um olhar já sem brilho pra morte, sua mãezinha bondosa e vê o
rosto, a sua mãe sorrindo...
Ele
sorri também... Compreensivo... Resignado... Concorda ficar em seus braços...
Ela
tão bondosa... Seus olhos nos olhos dele...
Sorri
dizendo – Não chores, não vai doer nada!
A chuva vai destilando gota a gota sobre as folhas
encharcadas , a terra parou de tremer dentro daquele homem.
Mais um Dia
Gutyerrez
Filho
Jorge acorda e
se espreguiça. O Sol já nasceu faz tempo. É domingo e ele acordou tarde. Quase
ao meio dia. Pra ele, esse é só mais um dia. Seus olhos estão pesados. O sono
insiste em ficar.
Enquanto Jorge
dormia, um garoto pobre, de dez anos morreu atropelado durante uma brincadeira
onde quatro rapazes que dirigiam alcoolizados corriam feito loucos pelas ruas
dando freadas bruscas.A mãe do garoto, chora desconsolada perante o corpo da
criança no necrotério,e os garotos que dirigiam, filhos de grandes empresários,
vão ficar impunes porque segundo o advogado deles: foi apenas um acidente.
Jorge levanta o
corpo com lentidão e senta na cama bocejando e espreguiçando-se novamente.
Naquele momento o presidente da república começa a sentir leves pontadas no
coração. O jornal dá a notícia que no Rio de Janeiro, numa favela, quinze
pessoas morreram num tiroteio entre policiais e traficantes. Entre os mortos
está uma garotinha de cinco anos com um tiro no peito, vítima de bala perdida.
Jorge olha o
relógio na parede, ainda é onze e meia. Ele decide deitar mais um pouco. Afinal
chegou em casa as seis da manhã da noitada. Foi uma noite e tanto! E além do
mais é domingo. Ele pode acordar tarde se quiser... Não muito longe dali, um
homem de quase setenta anos, limpa o árduo suor da testa enquanto trabalha duro
limpando e capinando, pra ganhar menos do que a metade da metade do que Jorge
ganha. Ao mesmo tempo, num apartamento ali perto, uma garota de quinze anos
descobre que pode estar grávida e não sabe quem é o pai. Do outro lado do país
assaltantes armados mantêm quinze reféns em um banco..
Jorge fecha os
olhos. Um jovem estuda concentradamente pra tentar passar no vestibular pra
medicina enquanto seu pai bebe a décima lata de cerveja e assiste futebol. Um
cozinheiro sorri feliz, por ter aprendido uma nova receita. Um pai de família
senta desconsolado no banco de uma praça, pois acaba de perder o emprego e
preciso pagar o estudo dos filhos.
Jorge está
prestes a dormir. Começa a imaginar coisas e cenas sem nexo. Pensamentos
avulsos vem em sua mente. Enquanto isso o aquecimento global está causando o
derretimento das geleiras nos pólos, e mudanças climáticas continuam ocorrendo
no mundo todo. Está chovendo muito na grande São Paulo, e as ruas estão
encharcadas, uma alagação está por vir. Na Somália, a mãe desnutrida da á luz
um filho morto. No Japão, um suspiro de alívio por uma alarme falso de
terremoto.
Jorge finalmente
dormiu. O trânsito continua barulhento nas grandes vias, as pessoas xingam
estressadas, preocupadas. Operários continuam suando, furando o chão, quebrando
pedras. Mas Jorge não sabe disso porque dorme, e as janelas e porta do seu
apartamento estão bem fechadas. Pra ele aquele é só mais um dia. E ele está
seguro ali, embaixo do seu cobertor.
***
A Loja de Amigos
Gutyerrez
Filho
Na porta de
vidro estava escrito “Entre”.
A garota entrou.
Tinha dezesseis anos. Rapidamente aproximou-se dela um vendedor, bem vestido,
bem penteado, e com um sorriso no rosto.
-Bom dia.
-Bom dia- disse
a garota de volta.
-Posso ajudá-la?
-Sim, eu estou
dando uma olhada.
Na verdade a
garota tinha olhado a loja já algum tempo e não tinha noção do que se vendia
ali, só havia visto o nome da loja:
“Loja de Amigos”
Talvez houvesse
roupas pra vender, talvez bijuterias, ou cosméticos... Não fazia mesmo idéia do
que se vendia ali e estava entrando só por curiosidade, mas então, ao entrar
foi surpreendida por tal vendedor.
-Fique a vontade
- disse ele
Foi então que
ela se espantou ao ver. Dentro da loja haviam várias prateleiras e várias pessoas
dentro de vidros gigantes iguais aos de maionese. Eram crianças, homens,
mulheres, velhos, pessoas de todos os tipos. A menina sentiu um pavor enorme ao
imaginar que iria acabar sendo presa ali junto com os outros.
-E então quer
olhar um modelo?-disse o vendedor
-O q-que são
eles?...Eles estão vivos? São de verdade?
-Claro que são.
Aqui vendemos amigos de todos os tipos.
Então a menina
olhou com mais atenção e percebeu que as pessoas estavam se mexendo dentro dos
vidros. Não eram apenas manequins. Todos estavam atentos a garota e olhavam
curiosos para ela, ansiosos para serem comprados. Com o olhar eles pareciam
dizer “ME COMPRE”.
-Você quer uma
amiga ou um amigo?
-Eu não sei... -
disse a menina- uma amiga, eu acho
-Bom eu posso
lhe mostrar uns modelos, quer ver?
-Sim, quero
O vendedor se
aproximou de uma vitrine aonde havia uma garota linda num dos vidros,
sorridente, olhos claros, cabelos ondulados e vestida na moda.
-Esse modelo é
bem requisitado, é um pouco caro, mas é uma amiga que lhe dará algumas
vantagens, mas algumas desvantagens também.
-Vantagens?—quis
saber a menina
-Sim, a vantagem
é que se você andar com ela vai saber de toda a vida dela, e poderá contar toda
sua vida a ela. Tudo que você contar a ela, ela não contará a ninguém. Ah sim,
outra coisa é que se você andar com ela você vai ter status, já que ela é bem
popular.
-E a
desvantagem?
-A desvantagem é
que ela sempre será mais bonita que você. E você será sempre a sombra dela. Os
garotos da sua idade vão preferir ela a você. Por isso você terá inveja dela.
- Hum, sei. E
quais são os outros modelos que vocês têm?
-Bom, tem essa
aqui também.
O vendedor então
mostrou num vidrinho uma garota morena de cabelo encaracolado, bem descolada, e
com o olhar companheiro
-Esse modelo é
sensacional!-disse o vendedor- É de uma amiga super companheira, super amável e
super sorridente. Estará com vocês em todos os momentos. Acontece que ela é
muito inteligente e sabe conversar como uma adulta, assim, se vocês estiverem
entre amigos, ela será sempre o centro das atenções por causa da sua
graciosidade. Então esse modelo não é bom pra quem gosta de ser o centro das
atenções.
-E aquele modelo
ali?-apontou a menina para um vidro onde estava uma garota com olhar sincero, e
com um sorriso de menina sapeca
-Ah sim- disse o
vendedor - como eu poderia ter esquecido?Esse modelo chegou recentemente na
loja!É um dos melhores
-Quais são as
vantagens e as desvantagens?- quis saber a menina que agora já entendia um
pouco do assunto
-Essa é uma
amiga super sincera, fala o que pensa, dá conselhos, adora a sua companhia,
chora com você nos momentos difíceis, sorri com você nos momentos fáceis, adora
fazer compras, fazer as unhas, sabe os melhores lugares pra ir, e você sentirá
que ela é como uma irmã pra você. A desvantagem é que ela é verdadeira demais e
por falar muito o que pensa, isso pode ocasionar algumas brigas, mas nada
grave. Ela não vai conseguir ficar muito tempo longe e logo virá pedir
desculpas.
-Nossa então
acho que vou levar essa! Gostei muito
-Quer que eu
embrulhe em papel de presente ou coloque em uma sacola?
-Não pode deixar
que eu a levo na mão mesmo, eu já vou usando no caminho
-Vai pagar em
cartão ou em dinheiro?
-Ah sim!Quanto é
mesmo?
-Cento e
cinqüenta cruzados
-Puxa!Até que
não está tão caro! Quanto tempo dura?
-Dura até três
meses.
-Só isso?
-Sim. Depois
disso ela ficará amuada em um canto. Ficará orgulhosa e quase não falará com
você. Depois disso, ela apaga e não tem mais funcionamento.
-Mas três meses
é muito pouco tempo de amizade!
-Minha querida-
sorriu o vendedor -isso é apenas uma loja. Se você quer amigos de verdade, e
que durem pro resto da vida, você não vai encontrar em uma loja. Mas sim lá
fora, nos momentos mais difíceis da sua vida.
***
Chico e o Mundo
Gutyerrez filho
Naquele dia o
cachorrinho Chico quis ver o mundo. E saiu pelo portão da frente perseguindo
uma borboleta azul, que havia pousado em seu nariz enquanto dormia.
Ele vivia bem
com os seus irmãos e sua mãe, Lessie, num quintal espaçoso, cheios de árvores,
numa casa cheia de jardins na frente. Ele tinha donos maravilhosos que lhe
davam carinho, que lhe carregavam no colo, que lhe alimentavam com leite, e até
com biscoitos. Mas naquele dia ele quis ver o mundo, e saiu pelo portão da
frente. Ele nunca havia chegado tão longe, ele nunca ia pra longe dos irmãos.
Chico era diferente. Era agitado. Latia pra cá, pulava pra lá. Puxava briga,
puxava o rabo de um aqui, a orelha de outro ali.
Sua mãe sempre
apartava as brigas, dando uma lambida, e ele vinha todo manhoso pra perto da
mãe. Tinha ciúmes dela. Queria ela só pra ele. Queria o leite dela só pra ele.
Queria a tigela de ração só pra ele. Queria tudo só pra ele. Se alguém tentava
fazer carinho no seu irmão mais gordinho ele corria pra perto, cutucava uma
pedra, pulava de um lado para o outro para chamar atenção para si. Queria todo
carinho só pra ele. E mesmo assim. E mesmo tendo tudo só pra si, algo o
incomodava. Algo ainda estava faltando. E ele acordava de noite, e saia de
fininho de perto do calor dos irmãos e de sua mãe. Saia da sua casinha e ia dar
uma volta pelo jardim, olhava as estrelas, deitado na grama, olhava para um
lado e para o outro. Queria mais espaço, mais coisas para descobrir, mais
coisas pra ver, mais coisas pra morder.
Chico escavava a
horta dos donos, espalhava o monte de folhas reunido no quintal, mordia as
flores, caçava formigas e besouros, mas rapidamente cansava daquilo e enjoava
rápido de todas as outras brincadeiras que ele mesmo inventava. Chico adorava
aventuras. Adorava o perigo. E fazia todo dia uma arte diferente, mas mesmo
assim, tinha algo errado.
Tinha alguma
coisa faltando e ele não sabia o que era. O pequeno Chico queria ver o mundo.
Chico odiava
tomar banho, fugia pra não ser pego e para não ir pra dentro da bacia d’água. E
se o pegavam, ele gania o tempo todo enquanto lhe ensaboavam e lhe escovavam, e
fingia sempre que caia sabão no seu olho, para ganhar mais atenção. Logo depois
do banho ele corria para a terra, não esperava que lhe enxugassem. Sacudia-se
todo, arrastava-se na grama, na terra e ficava imundo de novo. Lá ia ele pro
banho de novo! E dessa vez não deixavam que ele fugisse e o enxugavam com uma
toalha enquanto ele reclamava. Em seguida secavam o seu pelo com um secador e
ele adorava. Os irmãos morriam de medo do secador, mas ele não. Chico era
corajoso.
Sempre foi.
Por isso, saiu
pelo portão da frente. E logo esqueceu a borboleta e logo ficou encantado com o
mundo lá fora. Aquele grandioso e intrigante mundo que o esperava. Ficou
rapidamente eufórico balançando o rabo sem parar, latindo bravamente pra rua
muito movimentada com carros, ônibus, caminhões e bicicletas. Logo avistou, ali
na calçada, perto de uma lata de lixo, um gato vira-lata, rajado, fuçando atrás
de comida.
Perseguiu o
gato, que se assustou e atravessou a rua rapidamente. Chico não sabia fazer
isso. Ele não sabia atravessar a rua. Mas mesmo assim ele correu atrás do gato.
A rua era movimentada, vinha um carro e freou bem a tempo de Chico passar correndo,
assustado, para o outro lado da rua. Coração acelerado, e apavorado com aquela
freada brusca, Chico não sabia mais como voltar. A rua era muito movimentada.
As pessoas que passavam ali, na calçada tentaram pegá-lo, mas ele correu
latindo. Fugiu! Fugiu daqueles estranhos. A borboleta azul onde estava? O gato
rajado onde estava? E Chico onde estará agora?
Passou um dia.
Dois dias. Três dias. Passou uma semana. Um mês. Chico não voltou mais pra
casa. Quem esqueceu o portão da frente aberto? Os donos de Chico ficaram
tristes. Seus irmãos ficaram tristes. Sua mãe, Lessie, chorou triste. Onde
estará o Chico? Onde estará?
Nesse momento
está chovendo muito lá fora.
As noites são
muito frias lá fora. Chico está com frio? Chico está protegido da tempestade? Chico
terá arranjado algum amigo? Chico está com medo? Não. Não dá pra imaginar ele
com medo. Ele é muito corajoso. Sempre foi. Ele adorava o perigo.
Ele era tão
valente. Mas será que um dia ainda vai voltar pra casa? Será que está sozinho?
Terá arranjado um novo lar? Por onde anda o Chico?
Chico abandonou
o quintal onde morava e agora tudo está tão calmo. Tudo está tão calmo na
casinha, na horta. Tudo está tão sem alegria. Os seus irmãozinhos às vezes têm
a impressão que de uma hora pra outra ele vai aparecer, abanando o rabo e
correndo agitando tudo de novo. Mas talvez isso nunca mais aconteça. Talvez
nunca mais ele seja visto de novo. Ele levou consigo toda sua alegria naquele
dia, quando saiu pelo portão da frente.
E tudo o que
queria era ver o mundo.
Vozes Silenciadas
Gutyerrez
Filho
Era uma garota
linda. Tinha cabelos negros, olhos misteriosos e usava botas da mesma cor da
roupa. No rosto maquiagem escuras e um piercing. Estava no cemitério,
escrevendo em um diário, foi quando viu um homem, velho, que cavava um túmulo.
Era um coveiro. E ela escreveu sobre o coveiro na sua agenda e sobre o que
achava dele. Parecia um homem pobre, desnutrido, fracassado - cavando covas pra
ganhar dinheiro.Talvez nunca tivesse lido sequer um livro. Talvez nem soubesse
ler direito. De repente o coveiro percebeu a garota gótica ali. E disse:
-Porquê você
está aqui garota, no Lar dos Mortos?
-Vim pra ficar sozinha, pra pensar.
-Você não tem
medo?
-De quê?
-Dos mortos.
Ana riu. O
coveiro devia estar querendo lhe assustar
-Eu tenho mais
medo dos vivos do que dos mortos - respondeu ela.
-Então cuidado.
-Com o quê?
-Pra você não se
tornar como eles um dia.
-Todos nós vamos
morrer um dia e nos tornar como eles- disse Ana
O coveiro parou
então de cavar e se aproximou dizendo
-Aqui estão
enterradas pessoas. Muitas pessoas. Vítimas do tempo, de doenças, de acidentes,
incidentes. Aqui não estão enterrados só os corpos dessas pessoas, mas também
seus pensamentos e idéias nunca reveladas. Sentimentos reprimidos. Amores
secretos que jamais sairão do túmulo, mas que poderiam ter sido maravilhosos.
Pedidos de perdão nunca feitos. Coisas que deveriam ter sido resolvidas e não
foram. Sonhos que poderiam mudar o mundo. Sabedorias e conselhos que poderiam
mudar o rumo de uma vida e até quem sabe salvar uma vida. Todas essas coisas
agora estão aqui, enterradas e jamais sairão desse lugar. Tudo isso. Todas
essas coisas estão aqui, para sempre, aprisionadas na terra adormecida dos
corpos mortos. Essas coisas estarão para sempre gritando um “sinto muito” que
nunca veio para uma pessoa querida ou “eu sempre te amei” para uma pessoa
amada. Arrependimento... Essa terra está cheia de arrependimentos...
O coveiro
suspirou fundo e perguntou
-Qual o seu
nome?
-Ana
-Ana. Não deixe
que sua vida se torne algo cheio de arrependimentos. Não deixe sentimentos
escondidos até o túmulo. Não esconda amor no coração. Viva a vida. Ame. Grite.
Não venha se tornar pó um dia, sem dizer o que sente para que seus sonhos se
tornem apenas um petróleo onírico aqui desse lugar, onde todas as vozes
silenciadas gritam em silêncio.
Depois disso o
coveiro se foi. E Ana Também.
Aquelas palavras
do coveiro ficaram. Anos depois ela passou ali, e já era uma mulher. Ela passou
de carro e parou na frente do cemitério, abaixou o vidro e procurou por aquele
coveiro com os olhos, mas não o encontrou. Resolveu entrar e procurar por ele.
Foi até o lugar que estava naquele dia que conversou com o coveiro. Mas não o
encontrou também. Perguntou para um
vigia sobre o tal coveiro contou como ele era e que fazia tempo que tinha lhe
visto. O vigia lhe informou que era novo ali e que não conhecia ninguém assim
por ali. Ana então foi embora, e na
saída do cemitério, entre um tijolo do muro e o cimento da calçada, encontrou
uma flor bonita. Então sorriu.E lembrou do que havia aprendido duas coisas com
o tal coveiro que nunca deixaria sua vida ser um arrependimento e que coisas
bonitas e palavras sábias podem vir dos
lugares mais inesperados.
Acidente na Avenida
Gutyerrez Filho
Uma multidão
aglomerada atrapalhava o trânsito na avenida principal.
Pessoas curiosas
se aproximavam, velhas, senhoras, estudantes fardados, camelôs, vendedores
ambulantes de bombons. Panelinhas aqui e ali conversavam sobre o que havia acontecido.
Percebi logo de cara. Havia acontecido um
acidente. Me aproximei pra ver quem havia sido a vitima.
-Eu acho que ele
ainda está vivo- comentou uma senhora com um homem
-Ele desmaiou na
hora - dizia uma jovem para o seu namorado que a abraçava como que tentando
acalmá-la do susto de ter visto o acidente.
Ouvi outros
comentários como:
-Ela está morta?
-Acho que sim,
ela está cheia de sangue
Ele ...e
ela?Quantas pessoas eram afinal?-pensei eu
Fui me
aproximando, penetrando a multidão. Não dava pra ver nada. Tinha muita gente na
minha frente. Alguém se esbarrou em mim, saindo do aglomerado dando espaço pra
que eu entrasse nele. Tudo o que eu podia ver era uma picape tombada no meio da
avenida. Ouvi um barulho de sirene. Olhei pra trás e vi que o carro da
ambulância parava ali perto. Penetrei a multidão, me espremi para entrar
naquele aglomerado de gente curiosa. Empurrei uma mulher para de uma vez por
todas ver quem havia sido a vítima. Fiquei surpreso e chocado! Era uma garota
da minha idade! Fiquei mais surpreso ainda ao perceber que eu conhecia o
rosto. Será que era quem eu estava
pensando? Mas que droga! Eu não podia acreditar naquilo.
Na quarta série
eu havia estudado com uma garota chamada Carolina, não lembro o sobrenome.
Albuquerque, ou Oliveira, tanto faz. De início não nos falávamos direito. Só
trocávamos algumas poucas palavras que eram de “oi” a “me empresta um lápis”.
Eu tinha um amigo, parceirada que também estudou comigo da quinta série em
diante. O nome dele era Carlos. E ele vivia dizendo
-A Carolina esta
afim de você.
Eu não
acreditava, mas ele dizia que toda vez que ela me via ela sorria, e que ficava
me olhando quando eu passava. Comecei a achar então que aquilo podia ser
verdade, pois comecei a prestar atenção no jeito dela. Acontece que eu já era afim
de uma garota, uma da minha rua que sempre jogava vôlei com a gente. Por isso
não dei muita bola pra essa história. Aquele ano terminou e fomos todos pra
sexta série. Eu, Carlos e Carolina. O Carlos continuou dizendo que aquela
garota se amarrava em mim. Dizia:
-Pô, ela é
bonitinha, se eu fosse você eu ficava com ela
Eu inventava uma
desculpa e mudava de assunto. Como eu disse, tinha a garota do vôlei.
Naquele início
de ano recebi um bilhete, escrito numa
folha de caderno assinado como “admiradora secreta”. Estava mais do que na cara
que era coisa da Carolina. O bilhete dizia que eu era o cara certo pra ela,
tudo que ela sempre havia sonhado e que ela iria lutar por mim até o final e
outras coisas desse tipo. Uma verdadeira declaração de amor. Fiquei lisonjeado
com a carta. Até pensei em ficar de uma vez por todas com ela. Mas pelo jeito a
parada ia ser dura. Ela devia estar apaixonada e ia se envolver demais. Pensei
bem antes de tomar qualquer decisão. Resolvi também que não mostraria a carta
ao Carlos. Queria resolver aquela história sozinho. Continuei a Recber
bilhetinhos. Mais uns três ou quatro. E a Carolina quando encontrava comigo
sorria e tentava se aproximar e puxar conversa. E isso resultou em uma leve
amizade. Acabamos nos aproximando. Agora conversávamos mais abertamente, eu
fazia ela rir, ela me fazia rir. O Carlos dizia:
-É isso aí meu
irmão. Não, dispensa não!
E então houve
mais um bilhete, o último. Dessa vez um bilhete diferente. Em uma folha
colorida, perfumada e de cor rosa. Ali Carolina escreveu um poema e revelou sua
identidade dizendo que me amava e que não podia viver sem mim. Eu não podia
acreditar naquilo. Aquela história estava mais séria do que eu pensava. Toda
aquela declaração eu só podia corresponder de um jeito e fiz o que Carlos já
havia me dito. Fiquei com Carolina atrás da quadra da escola. E aí então
namoramos o resto daquele ano. A Carolina vivia me trazendo bombons,
bilhetinhos, cartõezinhos. Tudo ia bem entre a gente. Foi então que aconteceu.
Na sétima série a garota do vôlei me deu bola e aí ficou claro o que ia
acontecer. Traí a Carolina com ela. E rapidamente todo mundo ficou sabendo.
Inclusive ela. Ela não me disse uma palavra, apenas se afastou. Não foi tomar
satisfações, nem disse nada. Apenas se afastou. Desde então não nos falamos
mais. Evitávamos nos encontrar ou cruzar o olhar e foi assim durante toda a
sétima série. Na oitava série logo no início do ano eu percebi a mudança da
Carolina. Ela estava com um novo visual. Algo meio rebelde. Como se estivesse
revoltada. Havia pintado o cabelo, colocado piercing e feito uma tatuagem.
Agora ela respondia aos professores, xingava, gritava com os outros. Aquela
nova Carolina pouco lembrava a de antigamente que eu havia conhecido e
namorado. Aquela menina tímida e sorridente que evitava me olhar agora ela já
me encarava. E quando fazia isso era sempre com um olhar de raiva que parecia
dizer:
“A culpa é toda
sua!”
Então ela
começou a namorar com uns caras bem mais velhos que ela. Um dia apareceu bêbada
na escola.
O Carlos começou
a dizer:
-Viu o que você
fez? Feriu o coração da moça, cara.
Eu dizia que eu
não tinha nada a ver com isso. Final eu não podia acreditar que a garota havia
mudado totalmente por causa de um coração partido
Mas, eu não era
o tipo de cara que entendia muito de coisas do coração. A oitava série
continuou e Carolina continuou aprontando. Volta e meia toda a sala comentava
-Já sabe da
última. A Carolina saiu de casa.
-Já sabe da
última a Carolina está com os olhos roxos porque apanhou do namorado.
-Já sabe da
última... A Carolina desistiu da escola
E assim ela
sumiu. Não a vi nunca mais. Passou-se mais um ano. Dois anos. De vez em quando
eu havia por aí. Seu olhar já não era mais de raiva, agora era de desprezo.
Aí segui minha vida, Carlos também seguiu a
dele, se mudou pra outra cidade. A menina do Vôlei que aliás se chamava
Gabrielle, se casou cedo com um cara que veio do sul, filho de um empresário.
Tive várias namoradas depois disso. E essa história ficou no baú.
E agora ao
passar pela avenida vejo de repente esse rosto que eu um dia conheci. Carolina,
envolta em uma poça de sangue. Uma coisa terrível de se ver. A última notícia
que eu havia ouvido sobre ela era que ela estava namorando com um cara que
tinha uma picape e que só andava em alta velocidade. Já havia batido várias
vezes, mas nada desse tipo. Agora vejo o casal,
-Provavelmente a
garota ultrapassou o vidro do carro na hora que a picape bateu a toda
velocidade no poste. O rapaz e a moça estavam alcoolizados- ouvi alguém comentar
E aquilo me
deixou pensativo. E se eu não tivesse ficado com a garota do vôlei e não
houvesse magoado a Carolina. Ela teria um destino diferente? Ela teria andado
com más companhias tentando chamar a minha atenção? Ela teria ficado revoltada? Será que foi tudo
culpa minha? Será que foi tudo uma reação em cadeia, uma bola de neve? Não sei
dizer. E nem sei dizer também se ela estava viva, ali, caída no meio da
avenida.
***
Porcos na Alma
Rosa Neves
O sol ia se
pondo. Eu olhava aqueles raios por entre as árvores. Era belo e misterioso o
pôr do sol. Nos meus sete anos de longa vida, (me sentia uma mocinha) eu não
conseguia compreender. Eu pensava “Por que o sol vai embora?”.
Nesse tempo de férias
estávamos na fazenda de meu Pai. Casa Grande avarandada, com assoalhos bem alto
preparados por causa da grande cheia do
rio Amazonas, mas era tempo de verão e tudo estava seco. Na fachada da casa tinha uma placa com letras,
eu ainda não sabia ler, me disseram que
ali estava escrito “Fazenda Segredo”. Era na beira do rio Amazonas no meio da
floresta. Tinha de tudo lá: galinha, pato, pinto, cabra, cabrito, boi, vaca,
cavalo e porco.
Naquela hora do
pôr do sol, próximo onde eu estava sentada não havia silêncio. É que bem
próximo a mim uma enorme porca gorda
cheia de bacorinhos (porquinhos)estava deitada e eles tentando mamar gritavam fazendo enorme barulho. Não sei ao
certo quantos eram, sei que eram muitos, havia dois diferentes, eles estavam
enfeitados com laços no pescoço. Eu não estava ali por acaso, esperava o meu Cupuaçu
mamar, assim era o nome do meu porquinho. Era marrom, roliço, igual a um cupuaçu.
Ganhei esse porquinho de meu pai, o outro era de minha irmã.
Era tão lindo, mas,
me dava muito trabalho e preocupação, eu ficava seguindo e cuidando dele
durante o dia todo. Desde que o ganhei, pegava ele no colo como se fosse um
bebe, parecia que eu não agradava muito, porque ele gritava demais, sempre
agoniado não ficava quieto, esperneava querendo ir para o chão. Pegava ele no
meu colo acarinhando, mas ele sempre ficava roncando, quando não gritando.
No dia em que eu
e minha irmã ganhamos os nossos
porquinhos, papai nos chamou e disse:
-Filhas escolham
os seus bacorinhos!
Olhei e o meu
coração bateu forte quando deparei com o Cupuaçu, todo marronzinho, lindo, me
apaixonei por ele. Peguei-o no colo e fiz uma promessa:
-Eu vou cuidar
de você.
Eu queria dar um
banho nele. Minha mãe me ajudou. Deu banho, perfumou, colocou laçinho de fita
bem colorida e bonita com o nome que eu tinha escolhido e batizado. Cupuaçu na
verdade era uma porquinha.
Eu então doei
minha almofadinha para Cupuaçu dormir confortável. Cupuaçu não queria saber de
almofada, agoniada grunhia, guinchava, roncava e esperneava.
- Deixe ele no
chão um pouco para mamar, disse minha mãe aperreada com tanto grito.
Soltei Cupuaçu
que saiu em disparada atrás da porca; sim, daquela porca , porque a mãe de cupuaçu agora era eu. Corri atrás, a porcona tinha
resolvido ir para uma poça de lama se lambuzar e Cupuaçu para minha tristeza se
atirou com toda alegria na lama junto com a mãe e os irmãos.
Voltei chorando
porque minha porquinha estava toda suja. Inconsolável, chorava muito e
soluçava, minha mãe parecia sorrir do meu sofrimento e eu me desesperava em ver
a minha amada Cupuaçu na lama.
-Não chore e deixe
que ela possa descansar um pouco, depois nós daremos outro banho nela.
Fiquei sem
entender, porque cupuaçu estava cansada?
Ela estava no
meu colo o tempo todo! Não a deixei andar a manhã inteira!
Então novamente
minha mãe e eu pegamos Cupuaçu e demos outro banho nela, laçinho colorido de fita
outra vez em seu pescoço, fiz questão de
passar quase toda a minha lavanda em Cupuaçu, que gritava quanto mais eu
passava talco e lavanda.
Então nesse por
do sol eu esperava Cupuaçu mamar para pegá-la no colo novamente. Era bonito o
por do sol, mas eu estava preocupada, a noite estava chegando e Cupuaçu ia
ficar lá fora da casa no escuro. Então me perguntava, porque o sol vai embora? Naquele momento aquele era um problema sério
que eu não podia resolver. Era a minha preocupação. O problema era do meu
tamanho. Cogitei em fazer uma tentativa de levar Cupuaçu para dormir comigo em minha
rede. No momento refleti: que se mamãe descobrisse, era “peia” na certa. Então
fui falar com ela. Minha mãe respondeu:
-Nem pense mocinha!
Ela vai ficar bem, está com a mãe dela e amanhã você brinca outra vez com ela.
Não foi uma
explicação muito convincente. Fiquei magoada com mamãe. Mas argumentei, -
mãeee, eu não coloco ela na rede não, ela vai dormir na almofada em baixo da
minha rede.
Mamãe disse: - Quando mamãe diz não é não,
certo?
- Certo! – Respondi-
Custei dormir naquela noite. Ouvi o piado da coruja e pensei; - será que esse
bicho vai pegar minha porquinha? Meu coração ficou apertado, Cupuaçu devia
estar com medo do escuro e dos barulhos dos bichos do mato. Meus olhinhos se
encheram de lágrimas e dormi abraçada com a almofada de Cupuaçu.
De manhã bem
cedo, nem fui pegar o meu leite na caneca lá no curral. Fui atrás de Cupuaçu,
que estava toda suja novamente, foi outra maratona e os dias foram se passando
da mesma maneira, nem eu, nem Cupuaçu estávamos felizes. Cupuaçu já não gritava
tanto no meu colo, mas continuava a correr para a lama assim que tinha uma chance,
eu queria dar queijo pra ela, Ela queria era babujo, restos de frutas e
comidas. Tentei dar um pedaço de carne assada com feijão, carne de paca,
Cupuaçu não quis. Que dificuldade era a minha! Realmente era um problema sério
para mim, a minha querida Cupuaçu não queria ficar limpinha e nem deitar na
almofadinha cheirosa.
Isso me deixava
uma menina pensativa e até um pouco tristonha. Eu tinha tantos planos para
Cupuaçu. Queria fazer dela uma porca limpinha e cheirosa. Mas Cupuaçu não
queria saber de meus sonhos, o seu prazer estava em deitar na lama, fuçar o
chão e ficar emporcalhada. Eu estava pensativa. Cupuaçu não queria saber
daquele mundo de limpeza e perfumes. Meu pai me observou, me viu assim, foi até mim e perguntou:
-E então minha filha, onde está a sua porquinha?
-Ela fugiu pra lama papai! Respondi tristonha. - Por que pai? Por que ela
prefere a lama em vez da almofada cheirosa? Hein pai?
-Porque a lama já está na alma dela minha filha -
disse meu pai.
Então eu entendi...
Passei a
observar a alegria de Cupuaçu de longe, balançando o rabinho sujo de
satisfação. Eu olhava o pôr do sol e me perguntava “Por que o sol vai embora?”.
***
Um dia na enchente
Rosa neves
Manhã chuvosa,
um pouco fria. Ela se espreguiçou na rede e olhou para o lado, em outra rede
bem perto, estava a irmã, já acordada, com aquele sorrisinho conhecido. Sorriram
uma para a outra, e automaticamente pularam da rede quase ao mesmo tempo, correndo,
foram para a janela olhar os pingos de água caindo no rio.
Era tempo de
enchente. A água passava por debaixo do assoalho da casa, dando a impressão de estar sempre viajando em um barco. A casa era
feita de madeira, o assoalho também, com pernas altas, prevenindo as grandes
enchentes. As duas irmãs queriam ir para a varanda da casa onde a visão era
melhor, lá dava para ver os peixinhos nadando sob a água, tinha uns bem
pequenos fugindo dos grandões que queriam devorá-los. Assim como na vida onde também
há muitos peixões querendo devorar os peixes pequenos, que vivem lutando para
sobreviver neste tempo de grandes “enchentes”.
A varanda era espaço
proibido, para elas, pelo perigo de cair na água e se afogar. Seus pais tinham
grande preocupação com isso, pois volta e meia sabiam da morte de alguma
criança que caindo no rio se afogava. Uma tristeza só.
Os pingos da
chuva que incidiam no rio era uma atração à parte para Lalála; assim lhe
chamava sua irmã Balila. Eram apelidos carinhosos com que eram chamadas.
Lalála na sua
meninice olhava em torno e refletia:
-Tanta água, para quê...?
A água caia do céu, e ao redor era água por
toda parte, havia árvores que já estavam submersas, e a correnteza era forte,
trazendo e levando coisas sem parar, por debaixo da casa e nas laterais. Ficavam
ali apreciando, aquela beleza. Lá vinha um pedaço de pau, descendo rio abaixo e
a disputa começava:
- Esse barco é
meu!
- Não, é meu!
- Eu vi
primeiro!
-Não quero
mesmo, esse é feio!- E a peleja continuava.
Naquele dia
marcante, a chuva foi afinando, afinando até passar por completo. Haviam dias
que chovia o dia todo. A mãe falou:
- É hora de
escovar os dentes mocinhas!
Rapidamente pegaram
as escovas e foram para a escada, onde mais da metade já estava debaixo da água. Sentaram no degrau
e Balila ficou brincando com as mãos dentro da água, derrepente um grito se
ouviu, então ela levantou a mãozinha gritando, e atracada com os dentes ao seu
dedinho indicador, estava a malvada piranha. O pai-herói correu em seu socorro.
Foi uma mordida feia. A mãe fez o curativo. E foi aquela correria, depois que passou o susto, o pai
falou:
- Eu vou buscar o
leite!
Lalála correu
para pegar a caneca de alumínio com alça. Ouviu a irmã soluçando dizer:
- Eu vou também!-
Lalála então muito feliz pegou a caneca
da irmã. Era uma rotina irem com o pai
até a maromba tirar o leite pela manhã. Foram para a canoa, Lalála com lágrimas
nos olhos observava Balila que ainda soluçava no resto de choro, queria poder tirar da irmã aquela dor em seu
dedinho. E as recomendações da mãe vieram:
-Se assentem bem
no meio da canoa, cuidado! Não ponham as mãos na água, não se sujem!
O pai começou a
remar e lá foram rumo à maromba.
Maromba é um
curral de boi flutuante, com toras
grossas de madeira amarradas umas às outras, como jangadas enormes, com tábuas
por cima formando uma grande plataforma, ali
ficam os bois, cavalos, carneiros, na época de enchentes, até o rio
secar outra vez. E nos tempos de seca a maromba virava um lugar perfeito para
brincar e para lazer da família.
A maromba da
casa de Lalála, estava presa embaixo de árvores, onde o gado podia se proteger
do sol forte e desfrutar das sombras.
Antes de chegar
à maromba, a passagem pelas ingazeira e árvores
mari-mari, era certa! o pai colhia as
frutas.
Ao chegar no
curral, enquanto o pai tirava o leite, subiram na cerca e ficaram apreciando a
visão dos bezerros querendo mamar, andavam de um lado para o outro, uma vaca
mugindo, os cavalos relinchando.
Hora da mamada! O pai encheu as canecas, com
leite fresquinho e elas tomaram ali mesmo.
Balila olhou
para Lalála sorriu e disse:
- Olha o teu
bigode branco! Ela já havia esquecido o susto da piranha.
- Ta doendo? –
Perguntou Lalála.
–Ta. Respondeu a irmã.
- Papai do céu
vai curar, ta bom?- Se abraçaram ali. Uma cuidando da outra. Como selando um
pacto de amor. Aquele dia estava sendo marcado na vida delas. As irmãs maiores estavam
na cidade estudando. Só voltavam nas férias.
De volta para
casa, o pai passou onde havia colocado uma malhadeira e pegou diversos peixes.
Lalála estava
preocupada. E agora? A irmã não podia mais fazer nada. Tinha que ficar
quietinha com aquele dodói, a mão levantada, para não bater, se apressava o
passo, doía.Tinha que andar devagarzinho. Não podiam mais balançar na rede tão
alto, como gostavam porque também doía o dedinho. E agora? Correr pela casa
também não podia. O dedinho levantado para cima era a novidade do momento.
O que fazer
então? Duas crianças cheias de energias presas em uma casa sobre as águas do
grande rio Amazonas. Brincar de boneca não podiam, Balila estava impossibilitada
de pegar qualquer coisa, cheia de manha. A mãe com cuidado e tanta dó da filhinha mordida pela
perigosa piranha, fazia mingaus e chás
para Balila.
As crianças da vizinhança chegavam de canoas, eram meninos e meninas a partir de três anos, vinham pegar leite,
nas panelas. Às vezes traziam alguma coisa para trocar.
As duas
entediadas porque não tinha espaço para andar nem se movimentar muito.
Resolveram conversar: E foi o dia de repetir a história da piranha por diversas
vezes, e cada vez que elas recomeçavam mais detalhes iam acrescentando.
Lalála disse :
-Tu viu o olhão
dela arregalado para mim, dizendo – Eu
vou te pegar!
A irmã respondeu:
–Vi. E ela disse para mim:
-Depois que eu
te devorar eu vou comer a Lalála e todo mundo da casa, não vou deixar ninguém.
A biografia já
estava tão prolongada que a piranha já tinha virado um verdadeiro tubarão. A
história da pequena piranha já havia se transformado em uma fábula de terror. Se
o pai herói, não fosse mais rápido, e tão forte, ninguém mais existiria naquele
“lar-ilha”, e se mãe não fosse tão eficiente no curativo a água estaria toda
vermelha de tanto sangue que saía do dodói. O pior! É que se o pai e a mãe não
existissem elas estavam perdidas. Bateu um medo no peito, correram rumo a
cozinha para perto dos pais. O pai tecia uma tarrafa, a mãe já estava com a
mesa pronta para o almoço. Sobre a mesa, bandas de tambaqui assadas cheirando e
em uma panela fumaçando uma caldeirada de tucunaré. As pessoas que moravam na
casa foram chegando para o almoço. O tio das meninas havia pescado um enorme
pirarucu que ia vender no comercial flutuante próximo dali.
No decorrer do
almoço o tio foi narrar a pescaria; contou que viu um jacaré de uns cinco
metros que quase pegava ele. E as outras pessoas argumentavam;
- Porque não deu
um tiro no bicho?
-Se eu matar um
jacaré me prendem! Respondeu.
- Mas se ele
comer sua perna? Vão prender o jacaré? -Argumentou outra pessoa.
Fazendo mesuras
e sem respostas, mudaram de assunto. Depois do almoço foram fazer a sesta.
E o dia foi decorrendo.
O pai já havia voltado dos seus trabalhos diários.
A mãe então dirigiu a oração em família como
sempre, dizendo:
-Família que ora unida, permanece unida.
Depois desse momento o pai como costumeiramente pegou a viola, já com o sol se
pondo e cantou uma canção de lamento:
“Se o nordestino fala da seca
Da aspereza do seu chão
Eu falo cá do meu norte
E da sua inundação.
Ah! Eu deixei Maria Rosa
Muitos pés de plantação,
E arribei pra vila da barra
No primeiro regatão
Eu sou gente, que vivo no norte
Lutando com a vida em busca da sorte
Eu sou gente que vivo no norte
Buscando a vida e fugindo da morte”
E assim terminou
um dia na enchente...