sexta-feira, 10 de abril de 2015

Fragmentos de felicidade



Fragmentos de felicidade
                                                                                                                                      


       Gutyerrez Oliveira







Quando o barco, subindo o rio, passa por essas casas simples plantadas no chão dos lugarejos e aglomerados às margens dos nossos rios. Imagino pela vidraça da janela do barco esse quadro lindo no meio da paz.
Da impressão de poder afirmar que ali mora a felicidade rodeada de laranjais. Cercadas de abacateiros e castanheiras onde canta o sabiá e onde João- de- barro faz seu ninho pra morar com Joana de barros, casados para sempre.
Os caminhos de terra barrenta, penetram  fazendo curvas em direção aos roçados de plantas novas, e canteiros de cheiro verde,  onde cebolinhas e tomates esperam , aguardando  o peixe e  a  panelada fumegante  no fogão de lenha, que deixa ainda no ar,  escapar entre  nuvens de fumaça que sobem para o céu, o cheiro bom do café da manhã, com tapioca de goma  e leite de vaca  fervido, para os anjos  do céu cheirar.
Parece que ali mora a felicidade!...
O rio que passa na frente da casa de palha, parece mágico e misterioso, é como uma  estrada  de águas  onde  passam os ruídos do dia e da noite , as vozes, os ecos do agora  entram como ondas de radio  nas antenas parabólicas de TV fixadas no quintal.
Parte dos ruídos do motor do barco, penetram  pela floresta e se escondem nos confins da mata fugindo assustados dos latidos de cachorros que  nunca dormem.
 A casa espia da terra esse vai e vem lá de fora na estrada de água . Observa tudo da janela dos seus olhos, e na cumeeira dos seus pensamentos, pensa como um relampejo da noite aventureira, deseja viajar também.
Mas pela manhã, o dia seguinte se acende outra vez no quarto do seu coração. É lindo o sol dourado, dourando as árvores do roçado, as estradas do rio, as galinhas com seus pintinhos novos entre as penas e os carneiros no quintal.Como é bom ver o novo dia!
As meninas da casa acordam felizes, embalam com amor as espigas de milho que são  bonequinhas de pano  no coração delas. As mais lindas e belas bonecas de pano feitas das sobras de roupas de encomendas que sua mãe costurou.
Bonecas mais lindas do que as mimosa “bonecas de shoppings” que vieram outro dia da capital.
Bonecas e meninas se abraçam como bonequinhas de pano das sobras de “amores encomendados”  que sua mãe costurou.
Certeza que ali mora a felicidade!










Um poeta ocupado




 Um poeta ocupado

Gutyerrez oliveira


Hoje minha perna tem câimbras
Amanhã de manhã tenho pressa.
De tarde o ônibus passa...
Afastando com o vento as folhas secas da estrada sinuosa
No retrovisor do tempo vejo a idade nova ficando para trás... 
De madrugada o sono me transporta. Pela manhã não posso escrever...
Não tenho mais tempo para lapidar palavras.
Vejo um dia contando historias aos outros dias bem na minha frente
Misturam- se aos conhecimentos da noite e da madrugada que passou.
Não consigo mais escrever poesias, edificar palavras.  
Acumulo inspirações como fardos e entardecer como névoas.               
Boca e pensamentos costurados com fios 
Mãos e dedos colados, coitados!
Não faço mais o tempo. Meu tempo foge de mim.
Preciso reagir...
Então arranco os fios que emaranham, arranquei!
E sentado naquela cadeira em frente à tela do monitor 
Até tarde da madrugada escreverei
Pois o tempo é o vento que sopra em minha tez
Envelhecem os meus cabelos, e meus pensamentos
O meu rosto é passageiro em uma janela na locomotiva da saudade.
E a areia da ampulheta se finda!
Preciso reagir antes que a tesoura de ouro corte os fios de prata da vida
E quebre o cântaro de barro junto ao poço de águas cristalinas.
Não morte!  Não me alcançarás tão cedo
Pois muitos livros, contos, poesias e crônicas  
Publicarei ainda em meu grito de liberdaaade!!!...






quarta-feira, 8 de abril de 2015

Autopsicografia ginasial


                  Autopsicografia ginasial
                                                                                                     
                                                                                        Gutyerrez Oliveira


Hoje, Remexendo os meus guardados,
Dentro de um livro do Fernando, lembrei  nosso tempo colegial  (...)
Encontrei outra vez, o poema e a carta que eu não te mandei
Envelheceram todas aquelas declarações  e sentimentos ...
Só envelheceram!
Mas continuam os mesmos...
Dissestes na minha cara que eram fingimentos, aos meus escritos no papel!

Éramos tão jovens!
Meus olhos, não tiveram coragem  de declarar aos olhos teus
O amor que deveras senti...  
Não tive coragem!
 
Com o tempo,  ficaram ultrapassadas  as noticias do meu coração
Envelheci também!
Hoje, somente a brisa suave faz recordar tão completamente...
As caricias do teu rosto menina de trança  roçando o meu!    
Tornei-me um “apascentador de lembranças” do tempo menino Pessoa que havia em mim...
Passando-me por poeta escrevendo  pensamentos  adolescentes  de nós dois!
Noticias imaginarias do nosso amor...

Hoje, a falta que você me faz
Já não é tanta  
Mas ainda fazes...

A noite arquiva  saudades acumulando lembranças como rebanhos... 
E...
Os meus versos se acomodam no saco de dormir...
Estou vivo!  Posso sonhar!
E reler ainda
A carta que eu não ti mandei!
Você, ginasial, trocou de escola e se perdeu de mim!

Fernando Pessoa diz

Que o poeta é um fingidor (...)
Eu não sou, verdadeiramente te amei!

terça-feira, 7 de abril de 2015

Manaus da minha vida

Porcos na Alma
Rosa Neves

O sol ia se pondo. Eu olhava aqueles raios por entre as árvores. Era belo e misterioso o pôr do sol. Nos meus sete anos de longa vida, (me sentia uma mocinha) eu não conseguia compreender. Eu pensava “Por que o sol vai embora?”.
Nesse tempo de férias estávamos na fazenda de meu Pai. Casa Grande avarandada, com assoalhos bem alto preparados  por causa da grande cheia do rio Amazonas, mas era tempo de verão e tudo estava seco.  Na fachada da casa tinha uma placa com letras, eu ainda não sabia ler,  me disseram que ali estava escrito “Fazenda Segredo”. Era na beira do rio Amazonas no meio da floresta. Tinha de tudo lá: galinha, pato, pinto, cabra, cabrito, boi, vaca, cavalo e porco.
Naquela hora do pôr do sol, próximo onde eu estava sentada não havia silêncio. É que bem próximo a mim  uma enorme porca gorda cheia de bacorinhos (porquinhos)estava  deitada e eles tentando mamar  gritavam fazendo enorme barulho. Não sei ao certo quantos eram, sei que eram muitos, havia dois diferentes, eles estavam enfeitados com laços no pescoço. Eu não estava ali por acaso, esperava o meu Cupuaçu mamar, assim era o nome do meu porquinho. Era marrom, roliço, igual a um cupuaçu. Ganhei esse porquinho de meu pai, o outro era de minha irmã.
Era tão lindo, mas, me dava muito trabalho e preocupação, eu ficava seguindo e cuidando dele durante o dia todo. Desde que o ganhei, pegava ele no colo como se fosse um bebe, parecia que eu não agradava muito, porque ele gritava demais, sempre agoniado não ficava quieto, esperneava querendo ir para o chão. Pegava ele no meu colo acarinhando, mas ele sempre ficava roncando, quando não gritando.
No dia em que eu e minha irmã  ganhamos os nossos porquinhos,  papai nos chamou e disse:
-Filhas escolham os seus bacorinhos!
Olhei e o meu coração bateu forte quando deparei com o Cupuaçu, todo marronzinho, lindo, me apaixonei por ele. Peguei-o no colo e fiz uma promessa:
-Eu vou cuidar de você.
Eu queria dar um banho nele. Minha mãe me ajudou.   Deu banho, perfumou, colocou lacinho de fita bem colorida e bonita com o nome que eu tinha escolhido e batizado. Cupuaçu na verdade era uma porquinha.
Eu então doei minha almofadinha para Cupuaçu dormir confortável. Cupuaçu não queria saber de almofada, agoniada grunhia, guinchava, roncava e esperneava.
- Deixe ele no chão um pouco para mamar, disse minha mãe aperreada com tanto grito.
Soltei Cupuaçu que saiu em disparada atrás da porca;  sim, daquela porca , porque a mãe  de cupuaçu agora  era eu. Corri atrás, a porcona tinha resolvido ir para uma poça de lama se lambuzar e Cupuaçu para minha tristeza se atirou com toda alegria   na lama junto com a mãe e os irmãos.
Voltei chorando porque minha porquinha estava toda suja. Inconsolável, chorava muito e soluçava, minha mãe parecia sorrir do meu sofrimento e eu me desesperava em ver a minha amada Cupuaçu na lama.
-Não chore e deixe que ela possa descansar um pouco, depois nós daremos outro banho nela.
Fiquei sem entender, porque cupuaçu estava cansada?
Ela estava no meu colo o tempo todo! Não a deixei andar a manhã inteira!
Então novamente minha mãe e eu pegamos Cupuaçu e demos outro banho nela, lacinho colorido de fita  outra vez em seu pescoço, fiz questão de passar quase toda a minha lavanda em Cupuaçu, que gritava quanto mais eu passava talco e lavanda.
Então nesse por do sol eu esperava Cupuaçu mamar para pegá-la no colo novamente. Era bonito o por do sol, mas eu estava preocupada, a noite estava chegando e Cupuaçu ia ficar lá fora da casa no escuro. Então me perguntava, porque o sol vai embora?  Naquele momento aquele era um problema sério que eu não podia resolver. Era a minha preocupação. O problema era do meu tamanho. Cogitei em fazer uma tentativa de levar Cupuaçu para dormir comigo em minha rede. No momento refleti: que se mamãe descobrisse, era “peia” na certa. Então fui falar com ela. Minha mãe respondeu:
-Nem pense mocinha! Ela vai ficar bem, está com a mãe dela e amanhã você brinca outra vez com ela.
Não foi uma explicação muito convincente. Fiquei magoada com mamãe. Mas argumentei, - mãeee, eu não coloco ela na rede não, ela vai dormir na almofada em baixo da minha rede.
 Mamãe disse: - Quando mamãe diz não é não, certo?
- Certo! – Respondi- Custei dormir naquela noite. Ouvi o piado da coruja e pensei; - será que esse bicho vai pegar minha porquinha? Meu coração ficou apertado, Cupuaçu devia estar com medo do escuro e dos barulhos dos bichos do mato. Meus olhinhos se encheram de lágrimas e dormi abraçada com a almofada de Cupuaçu.
De manhã bem cedo, nem fui pegar o meu leite na caneca lá no curral. Fui atrás de Cupuaçu, que estava toda suja novamente, foi outra maratona e os dias foram se passando da mesma maneira, nem eu, nem Cupuaçu estávamos felizes. Cupuaçu já não gritava tanto no meu colo, mas continuava a correr para a lama assim que tinha uma chance, eu queria dar queijo pra ela, Ela queria era babujo, restos de frutas e comidas. Tentei dar um pedaço de carne assada com feijão, carne de paca, Cupuaçu não quis. Que dificuldade era a minha! Realmente era um problema sério para mim, a minha querida Cupuaçu não queria ficar limpinha e nem deitar na almofadinha cheirosa.
Isso me deixava uma menina pensativa e até um pouco tristonha. Eu tinha tantos planos para Cupuaçu. Queria fazer dela uma porca limpinha e cheirosa. Mas Cupuaçu não queria saber de meus sonhos, o seu prazer estava em deitar na lama, fuçar o chão e ficar emporcalhada. Eu estava pensativa. Cupuaçu não queria saber daquele mundo de limpeza e perfumes. Meu pai me observou,  me viu assim, foi até mim e perguntou:
-E então minha filha, onde está a sua porquinha?
-Ela fugiu pra lama papai!  Respondi tristonha. - Por que pai? Por que ela prefere a lama em vez da almofada cheirosa?  Hein pai?
-Porque a lama já está na alma dela minha filha - disse meu pai.
Então eu entendi...
Passei a observar a alegria de Cupuaçu de longe, balançando o rabinho sujo de satisfação. Eu olhava o pôr do sol e me perguntava “Por que o sol vai embora?”.

***


                   

Manaus da minha infância


Na verdade, dos sonhos estão muitas histórias de nossas vidas. Pensamentos, lembranças e saudades de vivos momentos ...
Que ficaram marcados na infância...