Porcos na Alma
Rosa Neves
O sol ia se
pondo. Eu olhava aqueles raios por entre as árvores. Era belo e misterioso o
pôr do sol. Nos meus sete anos de longa vida, (me sentia uma mocinha) eu não
conseguia compreender. Eu pensava “Por que o sol vai embora?”.
Nesse tempo de
férias estávamos na fazenda de meu Pai. Casa Grande avarandada, com assoalhos bem
alto preparados por causa da grande
cheia do rio Amazonas, mas era tempo de verão e tudo estava seco. Na fachada da casa tinha uma placa com letras,
eu ainda não sabia ler, me disseram que
ali estava escrito “Fazenda Segredo”. Era na beira do rio Amazonas no meio da
floresta. Tinha de tudo lá: galinha, pato, pinto, cabra, cabrito, boi, vaca,
cavalo e porco.
Naquela hora do
pôr do sol, próximo onde eu estava sentada não havia silêncio. É que bem
próximo a mim uma enorme porca gorda
cheia de bacorinhos (porquinhos)estava deitada e eles tentando mamar gritavam fazendo enorme barulho. Não sei ao
certo quantos eram, sei que eram muitos, havia dois diferentes, eles estavam
enfeitados com laços no pescoço. Eu não estava ali por acaso, esperava o meu Cupuaçu
mamar, assim era o nome do meu porquinho. Era marrom, roliço, igual a um cupuaçu.
Ganhei esse porquinho de meu pai, o outro era de minha irmã.
Era tão lindo, mas,
me dava muito trabalho e preocupação, eu ficava seguindo e cuidando dele
durante o dia todo. Desde que o ganhei, pegava ele no colo como se fosse um
bebe, parecia que eu não agradava muito, porque ele gritava demais, sempre
agoniado não ficava quieto, esperneava querendo ir para o chão. Pegava ele no
meu colo acarinhando, mas ele sempre ficava roncando, quando não gritando.
No dia em que eu
e minha irmã ganhamos os nossos
porquinhos, papai nos chamou e disse:
-Filhas escolham
os seus bacorinhos!
Olhei e o meu
coração bateu forte quando deparei com o Cupuaçu, todo marronzinho, lindo, me
apaixonei por ele. Peguei-o no colo e fiz uma promessa:
-Eu vou cuidar
de você.
Eu queria dar um
banho nele. Minha mãe me ajudou. Deu banho, perfumou, colocou lacinho de fita
bem colorida e bonita com o nome que eu tinha escolhido e batizado. Cupuaçu na
verdade era uma porquinha.
Eu então doei
minha almofadinha para Cupuaçu dormir confortável. Cupuaçu não queria saber de
almofada, agoniada grunhia, guinchava, roncava e esperneava.
- Deixe ele no
chão um pouco para mamar, disse minha mãe aperreada com tanto grito.
Soltei Cupuaçu
que saiu em disparada atrás da porca; sim, daquela porca , porque a mãe de cupuaçu agora era eu. Corri atrás, a porcona tinha
resolvido ir para uma poça de lama se lambuzar e Cupuaçu para minha tristeza se
atirou com toda alegria na lama junto com a mãe e os irmãos.
Voltei chorando
porque minha porquinha estava toda suja. Inconsolável, chorava muito e
soluçava, minha mãe parecia sorrir do meu sofrimento e eu me desesperava em ver
a minha amada Cupuaçu na lama.
-Não chore e deixe
que ela possa descansar um pouco, depois nós daremos outro banho nela.
Fiquei sem
entender, porque cupuaçu estava cansada?
Ela estava no
meu colo o tempo todo! Não a deixei andar a manhã inteira!
Então novamente
minha mãe e eu pegamos Cupuaçu e demos outro banho nela, lacinho colorido de fita
outra vez em seu pescoço, fiz questão de
passar quase toda a minha lavanda em Cupuaçu, que gritava quanto mais eu
passava talco e lavanda.
Então nesse por
do sol eu esperava Cupuaçu mamar para pegá-la no colo novamente. Era bonito o
por do sol, mas eu estava preocupada, a noite estava chegando e Cupuaçu ia
ficar lá fora da casa no escuro. Então me perguntava, porque o sol vai embora? Naquele momento aquele era um problema sério
que eu não podia resolver. Era a minha preocupação. O problema era do meu
tamanho. Cogitei em fazer uma tentativa de levar Cupuaçu para dormir comigo em minha
rede. No momento refleti: que se mamãe descobrisse, era “peia” na certa. Então
fui falar com ela. Minha mãe respondeu:
-Nem pense mocinha!
Ela vai ficar bem, está com a mãe dela e amanhã você brinca outra vez com ela.
Não foi uma
explicação muito convincente. Fiquei magoada com mamãe. Mas argumentei, -
mãeee, eu não coloco ela na rede não, ela vai dormir na almofada em baixo da
minha rede.
Mamãe disse: - Quando mamãe diz não é não,
certo?
- Certo! – Respondi-
Custei dormir naquela noite. Ouvi o piado da coruja e pensei; - será que esse
bicho vai pegar minha porquinha? Meu coração ficou apertado, Cupuaçu devia
estar com medo do escuro e dos barulhos dos bichos do mato. Meus olhinhos se
encheram de lágrimas e dormi abraçada com a almofada de Cupuaçu.
De manhã bem
cedo, nem fui pegar o meu leite na caneca lá no curral. Fui atrás de Cupuaçu,
que estava toda suja novamente, foi outra maratona e os dias foram se passando
da mesma maneira, nem eu, nem Cupuaçu estávamos felizes. Cupuaçu já não gritava
tanto no meu colo, mas continuava a correr para a lama assim que tinha uma
chance, eu queria dar queijo pra ela, Ela queria era babujo, restos de frutas e
comidas. Tentei dar um pedaço de carne assada com feijão, carne de paca,
Cupuaçu não quis. Que dificuldade era a minha! Realmente era um problema sério
para mim, a minha querida Cupuaçu não queria ficar limpinha e nem deitar na
almofadinha cheirosa.
Isso me deixava
uma menina pensativa e até um pouco tristonha. Eu tinha tantos planos para
Cupuaçu. Queria fazer dela uma porca limpinha e cheirosa. Mas Cupuaçu não
queria saber de meus sonhos, o seu prazer estava em deitar na lama, fuçar o
chão e ficar emporcalhada. Eu estava pensativa. Cupuaçu não queria saber
daquele mundo de limpeza e perfumes. Meu pai me observou, me viu assim, foi até mim e perguntou:
-E então minha filha, onde está a sua porquinha?
-Ela fugiu pra lama papai! Respondi tristonha. - Por que pai? Por que ela
prefere a lama em vez da almofada cheirosa? Hein pai?
-Porque a lama já está na alma dela minha filha -
disse meu pai.
Então eu entendi...
Passei a
observar a alegria de Cupuaçu de longe, balançando o rabinho sujo de
satisfação. Eu olhava o pôr do sol e me perguntava “Por que o sol vai embora?”.
***