A
viagem
Gutyerrez Oliveira
Nem
perceberam quando ele saiu. Não aguentava mais viver sozinho naquele casarão.
Seu próprio lar bem no centro da cidade. A esposa vivia quase o tempo
todo falando ao celular, teclando, passando e recebendo SMS com as amigas. A
filha mais nova, não saia quase nunca da internet e do seu mundo virtual. O
filho assistia filmes com a namorada a tarde toda, entrava pela noite varando a
madrugada.
Como o
rio grande passava bem na frente de sua cidade, ele então, começou planejar a
fuga. Mandou fabricar às escondidas uma canoa de muitos palmos de comprimento e
de largura, com toldo e assoalho. Saía sempre para a beira do rio, levando com
ele, pregos martelos e pincéis. A cada martelada e pincelada dada em sua
embarcação ele pensava; aquele seria o instrumento para sua liberdade. Desceria
o rio. Estava quase decidido. Pensava – um dia saio dessa solidão em que vivo
em minha casa! Gostava de ver o por do sol sobre o rio. Ficava imaginando -
Onde ia aquele rio? Assim ficava horas pintando e idealizando seus
sonhos de viagem. Meditava ao por do sol, olhava o brilho das águas,
pensava para onde iam aquelas águas em corredeiras rio abaixo ,
faziam um remanso aqui outro ali. Surgia um remanso de pensamentos
no seu coração e na sua alma. Talvez fosse o medo de deixar sua casa .
Era um grande mistério!! Passava horas espiando o rio, o brilho das
águas, as árvores marginais se perdiam nas lonjuras das
cabeceiras. O encontro das águas com as nuvens na distancia ,
formavam lindos desenhos de montanhas e cara de gentes no céu . Ficava
imaginando por quantos lugares aquelas águas passavam rio abaixo.
Por causa disso idealizava sua viagem, pensava ir embora, viver seus
sonhos guardados e escondidos a muito tempo dentro dele, em seus
pensamentos. Não porque quisesse deixar sua família ou desistir da sua vida de
pai. Mais será que valia a pena? Pensava . Vivia naquela solidão a
algum tempo. Talvez por causa da evolução tecnológica que ele não quis
acompanhar. Celular, Internet, sei lá. Um dia reuniu as crianças ,
a esposa e falou : Meninos... querida! Prestem atenção ao que tenho pra falar: “Esse
mesmo mundo virtual que tem nos aproximado das pessoas distantes, tem
distanciado a nos os que vivíamos em família” . O certo é que ninguém da
família ligou para o que ele dizia . Quase nem o ouviram ! Disseram entre um
clik e outro sem tirar os olhos do monitor. Papai está ficando
velho , quer voltar ao primitivismo de criar galinha, de cozinhar em
fogão de barro , sentar em cadeiras na calçada em frente a nossa casa. Gosta de
perder tempo vendo o rio e o sol no final da tarde. Gosta de dormir cedo,
a boca da noite, que nem as galinhas. Acordar muito cedo para ver a manhã
chegando. Paciência papai, seu tempo já passou! Agora a linguagem é outra! É
NET, é ENTER , downloads , Bluetooth, facebook , twitter. Num clik
pai, chego lá! Com outro clik dou a volta ao mundo, sou um navegador
também .Qual é pai? Sai dessa, o mundo de ontem já era.
Então
no seu coração , ficou decidido. Noutro dia pela manhã ele levou a lona para as
laterais da canoa , as compras para alguns dias de viagem , carne
seca, farinha ,arroz açúcar ,fósforo, mantimentos. O remo, colheres, terçado,
camisas com mangas compridas, uma bíblia para meditar nas escrituras
sagradas (...). Estava resolvido ir embora, era demais a solidão. Ninguém
mais falava com ele dentro de sua própria casa. Ninguém tinha tempo a
perder conversando com um “ pai velho” . Foi o tempo que ele era o herói.
As crianças viviam ao pé dele fazendo perguntas, querendo conversar. Como “
esposo” então? Nem se fala! Sua esposa o chamava de “querido”. Tempo bom! Agora
era melhor procurar outro lugar, “outro mundo” para voltar a ser feliz.
Talvez o mundo procurado estivesse logo ali na frente.
Em alguma casinha coberta de palha ou num sitio qualquer na
curva do rio. Estava determinado ir embora com aquelas águas.
Espiaria outras margens outras cidades ribeirinhas. Tinha certeza,
voltaria conversar com alguém que lhe desse importância!
Alguém que gostasse dos seus contos , suas historias, suas poesias.
Remou com braçadas largas até o meio do rio na frente da cidade e
podia sem muito esforço olhar a cidade ficando para trás. Estavam ficando
ali sua esposa e seus filhos queridos. Sentiria saudades ...
Deixou
por conta das águas “levar” o barco para onde quisessem. Derrepente
quando seus filhos e esposa perguntassem por ele. Onde está o
papai? Onde está o pai de vocês? Já seria tarde demais. Ele já estaria
caminhando com as águas do rio. Agora era maravilhoso ir olhando as
margens que sempre imaginou conhecer... Barrancas caídas e
árvores descendo num redemoinho, garças viajando sobre o capim canaranas , ele
agora estava aonde queria. Não se tratava de solidão, as árvores
acenavam para ele das margens , as nuvens lá no alto
desenhavam figuras alegres no meio da tarde ao por do sol. As águas
falavam palavras tocando com o banzeiro no casco da sua canoa – a
tarde vinha chegando e com ela o por do sol. Algo o fez
lembrar , estava agora bem distante de sua casa na cidade. Seus
olhos viam agora na curva do rio, uma casinha de palha. Agora
talvez, alguém pensasse no pai e perguntaria : -Onde esta o papai?
-Mãe, para onde foi o papai? -Não sei meninos, ainda a pouco
eu o vi cuidando dos pintos e capinando o quintal.




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