sábado, 11 de fevereiro de 2023

Historia de Igapó - cap1

 

1-VISITAÇÃO

 

Em outra noite muito negra de chuva, quando os pingos grossos faziam um alarido abafado na palha do telhado e escorriam como pequenas enxurradas pelas laterais do lado de fora da casa, Cândida, sentada na rede iluminada pela fraca luz da lamparina, ainda mastigava uma lasca de pirarucu retirada da sua famosa lata que lhe servia como merendeira. Guardava-a sempre com farinha e um pedaço de peixe assado. Então, onde estivesse, ao sentir fome, abria discretamente a lata, rasgava uma lasca do peixe, e como sempre dizia; “vou dar uma queda no cão.” Então, com a mão cheia de farinha retirada da lata, e com pontaria certeira, jogava na própria boca e matava a fome daquele momento.

Minha avó, Cândida olhou dentro dos meus olhos, como se quisesse derramar dentro deles toda a minha vida já vivida, como um filme em longa-metragem. Pois ela conhecia a minha história. Começou contando como foi a noite do meu nascimento.

 

– Logo que você saiu do ventre de sua mãe...

 

A partir dessas palavras vindas dos lábios de Cândida continuei ouvindo-a, mas, comecei a construir cenas na minha cabeça. Imagens cinematográficas surgiram como se fosse o filme da minha vida que eu assistia. O protagonista e as personagens daquela história eram meus. A bolsa d'água estourou. Naquele instante eu estava saindo do ventre de minha mãe. Sentia a passagem, a saída do escuro para a claridade, e o meu corpo ensopado de sangue e restos de parto. Eu deslizava daquele lugar apertado para fora. Cândida me colocou no colo, senti quando a faca afiada cortava o cordão umbilical que me ligava, cheguei a ouvir meu próprio grito desesperado buscando o ar que me faltava, dei um grito tão medonho, que no susto, levantou minha mãe que ainda estava deitada na areia da margem do rio no porto das canoas, aonde eu acabava de vir ao mundo. Nasci com a metade do corpo para fora e outra metade para dentro d’água.

O cheiro de pitiú invadiu o ar e misturou-se com as águas do Paraná, imediatamente ouviu-se uma voz:

– Me dá ele.

 Cândida olhou para os lados e não viu ninguém

– Me dá ele – insistiu a voz. Era uma voz masculina e firme, cheia de autoridade.

Cândida sabia do que se tratava.

– Vá embora! – disse ela, e me cobriu melhor com o lençol, depois me abraçou para que eu não sentisse frio. Ajudou minha mãe a caminhar da beira do Paraná até o nosso barracão de morada e nos pôs a salvo. Já dentro, olhou para fora através da janela aberta. Percebeu mexidas e chiados revirando o matagal ao redor da casa. Sentiu um vento gelado e cortante tocar sua pele.  Algo se aproximava vindo da floresta. Um animal? Talvez. Imediatamente ela fechou todas as janelas da casa e trancou bem a porta de entrada, percebeu quando alguém do lado de fora veio se achegando, e colocou-se muito próximo à janela fechada, falando com a respiração ofegante, uma voz rouca e assustadora que dizia:

Me dá ele.     

Por um momento Cândida sentiu-se confusa. Afinal de contar aquela era uma voz de verdade ou apenas algo de sua mente?

Contavam muitas histórias sobre as matas, e o desaparecimento de bebês que eram levados pelos espíritos e bichos da floresta e do rio, mas de uma coisa ela tinha certeza, eu não seria levado. Ela precisava ser forte e protetora, ajudar também minha mãe durante a quarentena do resguardo.

ME DÁ ELE!  A voz agora parecia mais agressiva. Vinha do lado de fora da casa. E ali a tal criatura não podia entrar porque não havia sido convidada. Toda criatura, ou bicho do mato só pode entrar numa casa se for convidado. Isso é um fato conhecido em todo lugar. A casa é um lugar sagrado, quando o amor faz parte de uma família, protege o lugar das vozes e dos espíritos das trevas.

Naquela noite ela caminhou até a janela, orou pedindo e clamando a Deus que mandasse os seus anjos guardadores de homens, com suas espadas poderosas para que protegessem seus filhos, seu netinho ainda de colo, e toda sua casa.

Então, num arranque de coragem gritou bem alto, para que sua voz fosse ouvida e penetrasse como faca afiada, nos ouvidos noturnos e tenebrosos que estavam ao redor da casa. As palavras ecoaram cortantes, levadas pelo caminho da meia noite, para que todos os seres viventes entranhados no meio das sombras ouvissem sua voz que dizia:

 

“Em nome do Deus Eterno! Esconjuro-te filhos do tinhoso”.

 

Mesmo assim, aquele mal parecia não ter ido embora. Todos os dias, depois de ajudar a minha mãe a me fazer dormir, Cândida ia para a varanda da casa, olhava a floresta envolta em um breu total. Era bem medonha de se ver. Mesmo a luz da lua cheia tão radiante não penetrava naquelas matas. Ela tinha sempre a impressão de ver sombras que pareciam trocar de lugares com as outras por detrás das árvores. Imaginava ver algo, qualquer coisa no meio daquelas árvores entremeadas com a tosca luz, que mostrava silhuetas absurdas e monstruosas de índios e abantesmas, tinha a impressão que via contornos de pessoas e fixava os olhos na escuridão. Sua mente e visão confundiam-se entre as folhagens noturnas. A mata durante a noite, e até de dia, é sempre misteriosa e assustadora!

Quando ela fechava todas as portas e janelas da casa, ouvia passos do lado de fora, como se alguém estivesse rondando a casa, buscando um meio de entrar. Cândida acordada, em silêncio ficava atenta. E se preparava para pegar o facão que estava bem ao lado de sua rede. Nessas horas lamentava que seu finado marido não estivesse mais ali. Mas não podia apenas lamentar, tinha que proteger sua família.

Com seus ouvidos atentos ela ouvia lá fora os grilos e as cantorias dos sapos em um coro hipnótico e uníssono. As vezes também havia o grito do toró, um tipo de rato do mato enorme que comia cacau nos pés de cacaueiros que ficavam em volta da casa. Ele fazia barulhos nas árvores intercalados gritando

– Toró!... Toró!

Era amedrontador.

Depois de Cândida me contar tais fatos, eu, de olhos arregalados ficava em silêncio me perguntando a quem pertenceria aquela voz que minha avó tanto ouvia sussurrar insistentemente pedindo que ela me entregasse.

“Me dá ele!”

Sentia vontade de perguntar a ela que voz era aquela, mas não tinha coragem, pois tinha mais medo ainda da resposta que ela podia me dar.

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