1-VISITAÇÃO
Em outra noite muito
negra de chuva, quando os pingos grossos faziam um alarido abafado na palha do
telhado e escorriam como pequenas enxurradas pelas laterais do lado de fora da
casa, Cândida, sentada na rede iluminada pela fraca luz da lamparina, ainda
mastigava uma lasca de pirarucu retirada da sua famosa lata que lhe servia
como merendeira. Guardava-a sempre com farinha e um pedaço de peixe assado.
Então, onde estivesse, ao sentir fome, abria discretamente a lata, rasgava uma
lasca do peixe, e como sempre dizia; “vou dar uma queda no cão.”
Então, com a mão cheia de farinha retirada da lata, e com pontaria certeira, jogava
na própria boca e matava a fome daquele momento.
Minha avó, Cândida
olhou dentro dos meus olhos, como se quisesse derramar dentro deles toda a minha
vida já vivida, como um filme em longa-metragem. Pois ela conhecia a minha
história. Começou contando como foi a noite do meu nascimento.
– Logo que você saiu
do ventre de sua mãe...
A partir dessas
palavras vindas dos lábios de Cândida continuei ouvindo-a, mas, comecei a
construir cenas na minha cabeça. Imagens cinematográficas surgiram como se
fosse o filme da minha vida que eu assistia. O protagonista e as personagens
daquela história eram meus. A bolsa d'água estourou. Naquele instante eu estava
saindo do ventre de minha mãe. Sentia a passagem, a saída do escuro para a
claridade, e o meu corpo ensopado de sangue e restos de parto. Eu deslizava
daquele lugar apertado para fora. Cândida me colocou no colo, senti quando a
faca afiada cortava o cordão umbilical que me ligava, cheguei a ouvir meu
próprio grito desesperado buscando o ar que me faltava, dei um grito tão
medonho, que no susto, levantou minha mãe que ainda estava deitada na areia da
margem do rio no porto das canoas, aonde eu acabava de vir ao mundo. Nasci com
a metade do corpo para fora e outra metade para dentro d’água.
O cheiro de pitiú
invadiu o ar e misturou-se com as águas do Paraná, imediatamente ouviu-se
uma voz:
– Me dá ele.
Cândida olhou para os lados e não viu ninguém
– Me dá ele – insistiu a voz.
Era uma voz masculina e firme, cheia de autoridade.
Cândida sabia do que
se tratava.
– Vá embora! – disse ela,
e me cobriu melhor com o lençol, depois me abraçou para que eu não sentisse
frio. Ajudou minha mãe a caminhar da beira do Paraná até o nosso barracão de
morada e nos pôs a salvo. Já dentro, olhou para fora através da janela
aberta. Percebeu mexidas e chiados revirando o matagal ao redor da casa. Sentiu
um vento gelado e cortante tocar sua pele. Algo se aproximava vindo da floresta. Um
animal? Talvez. Imediatamente ela fechou todas as janelas da casa e trancou bem
a porta de entrada, percebeu quando alguém do lado de fora veio se achegando, e
colocou-se muito próximo à janela fechada, falando com a respiração ofegante,
uma voz rouca e assustadora que dizia:
– Me dá ele.
Por um momento
Cândida sentiu-se confusa. Afinal de contar aquela era uma voz de verdade ou
apenas algo de sua mente?
Contavam muitas histórias
sobre as matas, e o desaparecimento de bebês que eram levados pelos espíritos e
bichos da floresta e do rio, mas de uma coisa ela tinha certeza, eu não seria
levado. Ela precisava ser forte e protetora, ajudar também minha mãe durante a
quarentena do resguardo.
– ME DÁ ELE! –
A voz agora parecia mais agressiva. Vinha
do lado de fora da casa. E ali a tal criatura não podia entrar porque não havia
sido convidada. Toda criatura, ou bicho do mato só pode entrar numa casa se for
convidado. Isso é um fato conhecido em todo lugar. A casa é um lugar sagrado,
quando o amor faz parte de uma família, protege o lugar das vozes e dos
espíritos das trevas.
Naquela noite ela caminhou
até a janela, orou pedindo e clamando a Deus que mandasse os seus anjos
guardadores de homens, com suas espadas poderosas para que protegessem seus
filhos, seu netinho ainda de colo, e toda sua casa.
Então, num arranque
de coragem gritou bem alto, para que sua voz fosse ouvida e penetrasse como
faca afiada, nos ouvidos noturnos e tenebrosos que estavam ao redor da casa. As
palavras ecoaram cortantes, levadas pelo caminho da meia noite, para que todos
os seres viventes entranhados no meio das sombras ouvissem sua voz que dizia:
“Em nome do Deus Eterno! Esconjuro-te filhos do tinhoso”.
Mesmo assim, aquele
mal parecia não ter ido embora. Todos os dias, depois de ajudar a minha mãe a me
fazer dormir, Cândida ia para a varanda da casa, olhava a floresta envolta em
um breu total. Era bem medonha de se ver. Mesmo a luz da lua cheia tão radiante
não penetrava naquelas matas. Ela tinha sempre a impressão de ver sombras que pareciam
trocar de lugares com as outras por detrás das árvores. Imaginava ver algo,
qualquer coisa no meio daquelas árvores entremeadas com a tosca luz, que
mostrava silhuetas absurdas e monstruosas de índios e abantesmas, tinha a
impressão que via contornos de pessoas e fixava os olhos na escuridão. Sua
mente e visão confundiam-se entre as folhagens noturnas. A mata durante a
noite, e até de dia, é sempre misteriosa e assustadora!
Quando ela fechava
todas as portas e janelas da casa, ouvia passos do lado de fora, como se alguém
estivesse rondando a casa, buscando um meio de entrar. Cândida acordada, em
silêncio ficava atenta. E se preparava para pegar o facão que estava bem ao
lado de sua rede. Nessas horas lamentava que seu finado marido não estivesse
mais ali. Mas não podia apenas lamentar, tinha que proteger sua família.
Com seus ouvidos
atentos ela ouvia lá fora os grilos e as cantorias dos sapos em um coro hipnótico
e uníssono. As vezes também havia o grito do toró, um tipo de rato do mato
enorme que comia cacau nos pés de cacaueiros que ficavam em volta da casa. Ele
fazia barulhos nas árvores intercalados gritando
– Toró!... Toró!
Era amedrontador.
Depois de Cândida me
contar tais fatos, eu, de olhos arregalados ficava em silêncio me perguntando a
quem pertenceria aquela voz que minha avó tanto ouvia sussurrar insistentemente
pedindo que ela me entregasse.
“Me dá ele!”
Sentia vontade de
perguntar a ela que voz era aquela, mas não tinha coragem, pois tinha mais medo
ainda da resposta que ela podia me dar.
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