sábado, 9 de maio de 2015
A viagem
A viagem
Gutyerrez Oliveira
Nem perceberam quando ele saiu. Não aguentava mais viver sozinho naquele casarão. Seu próprio lar bem no centro da cidade. A esposa vivia quase o tempo todo falando ao celular, teclando, passando e recebendo SMS com as amigas. A filha mais nova, não saia quase nunca da internet e do seu mundo virtual. O filho assistia filmes com a namorada a tarde toda, entrava pela noite varando a madrugada.
Como o rio grande passava bem na frente de sua cidade, ele então, começou planejar a fuga. Mandou fabricar às escondidas uma canoa de muitos palmos de comprimento e de largura, com toldo e assoalho. Saía sempre para a beira do rio, levando com ele, pregos martelos e pincéis. A cada martelada e pincelada dada em sua embarcação ele pensava; aquele seria o instrumento para sua liberdade. Desceria o rio. Estava quase decidido. Pensava – um dia saio dessa solidão em que vivo em minha casa! Gostava de ver o por do sol sobre o rio. Ficava imaginando - Onde ia aquele rio? Assim ficava horas pintando e idealizando seus sonhos de viagem. Meditava ao por do sol, olhava o brilho das águas, pensava para onde iam aquelas águas em corredeiras rio abaixo , faziam um remanso aqui outro ali. Surgia um remanso de pensamentos no seu coração e na sua alma. Talvez fosse o medo de deixar sua casa . Havia um grande mistério no seu interior!! Passava horas espiando o rio, o brilho das águas, as árvores marginais se perdiam nas lonjuras das cabeceiras.Aquilo tudo lhe envolvia.O encontro das águas com as nuvens na distancia , formavam lindos desenhos de montanhas e cara de gentes no céu . Ficava imaginando por quantos lugares aquelas águas passavam rio abaixo. Por causa disso idealizava sua viagem, pensava ir embora, viver seus sonhos guardados e escondidos a muito tempo dentro dele, em seus pensamentos. Não porque quisesse deixar sua família ou desistir da sua vida de pai. Mais será que valia a pena? Pensava . Vivia naquela solidão a algum tempo. Talvez por causa da evolução tecnológica que ele não quis acompanhar. Celular, Internet, sei lá. Um dia reuniu as crianças , a esposa e falou : Meninos... querida! Prestem atenção ao que tenho pra falar: “Esse mesmo mundo virtual que tem nos aproximado das pessoas distantes, tem distanciado a nos os que vivíamos em família” . O certo é que ninguém da família ligou para o que ele dizia . Quase nem o ouviram ! Disseram entre um clik e outro sem tirar os olhos do monitor. Papai está ficando velho,quer voltar ao primitivismo de criar galinha, de cozinhar em fogão de barro , sentar em cadeiras na calçada em frente a nossa casa. Gosta de perder tempo vendo o rio e o sol no final da tarde.Gosta de dormir cedo, a boca da noite, que nem as galinhas. Acordar muito cedo para ver a manhã chegando. Paciência papai, seu tempo já passou! Agora a linguagem é outra! É NET, é ENTER , downloads , Bluetooth, facebook , twitter. Num clik pai, chego lá! Com outro clik dou a volta ao mundo, sou um navegador também .Qual é pai? Sai dessa, o mundo de ontem já era.
Então no seu coração , ficou decidido.
Noutro dia pela manhã levou a lona para as laterais da canoa , as compras para alguns dias de viagem , carne seca, farinha ,arroz açúcar ,fósforo, mantimentos. O remo, colheres, terçado, camisas com mangas compridas, uma bíblia para meditar nas escrituras sagradas (...). Estava resolvido ir embora, era demais a solidão. Ninguém mais falava com ele dentro de sua própria casa. Ninguém tinha tempo a perder conversando com um “ pai velho” . Foi o tempo que ele era "o herói". As crianças viviam ao pé dele fazendo perguntas, querendo conversar. Como “ esposo” então? Nem se fala! Sua esposa o chamava de “querido”. Tempo bom! Agora era melhor procurar outro lugar, “outro mundo” para voltar a ser feliz. Talvez o mundo procurado estivesse logo ali na frente. Em alguma casinha coberta de palha ou num sitio qualquer na curva do rio. Estava determinado ir embora com aquelas águas. Espiaria outras margens outras cidades ribeirinhas. Tinha certeza, voltaria conversar com alguém que lhe desse importância! Alguém que gostasse dos seus contos , suas historias, suas poesias. Remou com braçadas largas até o meio do rio na frente da cidade e podia sem muito esforço olhar a cidade ficando para trás. Estavam ficando ali sua esposa e seus filhos queridos.Sentiria saudades ...
Deixou por conta das águas “levar” o barco para onde quisessem. Derrepente quando seus filhos e esposa perguntassem por ele. Onde está o papai?Onde está o pai de vocês? Já seria tarde demais. Ele já estaria caminhando com as águas do rio. Agora era maravilhoso ir olhando as margens que sempre imaginou conhecer ... Barrancas caídas e árvores descendo num redemoinho , garças viajando sobre o capim canaranas, ele agora estava aonde queria. Não se tratava de solidão, as árvores acenavam para ele das margens , as nuvens lá no alto desenhavam figuras alegres no meio da tarde ao por do sol. As águas falavam palavras tocando com o banzeiro no casco da sua canoa – a tarde vinha chegando e com ela o por do sol. Algo o fez lembrar , estava agora bem distante de sua casa na cidade. Seus olhos viam agora na curva do rio, uma casinha de palha. Agora talvez, alguém pensasse no pai e perguntaria : -Onde esta o papai? -Mãe, para onde foi o papai? -Não sei meninos, ainda a pouco eu o vi cuidando dos pintos e capinando o quintal.
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