quarta-feira, 20 de maio de 2015

Eu era feliz e não sabia !



                                                        Eu era feliz e não sabia!

Gutyerrez Oliveira

As recordações continuam batendo bem mais forte. Pulsando no coração, tocando a alma que sai na ponta do lápis para registrar esta saudade.
Saudade do "eu menino" da Manaus da minha infância, quando ia e vinha pela rua monsenhor Coutinho,rua que passa por detrás da igreja do largo de São Sebastião, onde de 15 em 15 minutos, ainda hoje o relógio da torre badala a hora certa.

Naquele tempo eu morava nessa rua.Tinha seis anos de idade, estudante inicial empolgado com a mágica das primeiras letras, que ao ajuntá-las,formavam palavras que nos  permitiam voar,imaginar e penetrar no meio das histórias de livros que continham sonhos que nos transportavam para qualquer lugar.

Um dia voei em um tapete voador com Aladim,sua lâmpada e sua namorada, voando por cima de Bagdá, vi assustado as torres da cidade em formato de abóboras gigantes,quase colidimos com algumas delas. Outra vez fiquei tremendo de medo quando ao caminhar com Ali – Baba, ouvimos um tropel de cavalos e tivemos que nos esconder por detrás de uma moita enquanto o chefe dos quarenta ladrões gritava “Abre te Sésamo” e aquela imensa porta na rocha foi se abrindo sem fazer nenhum barulho ,então todos os ladrões entraram, o chefão falou  agora       “ Fecha te Sésamo” e a porta no meio da rocha voltou ao normal como se nada tivesse acontecido, gravamos as palavras mágicas pronunciadas pelo seu maioral, então  quando os ladrões foram embora, eu e Ali- Baba nos aproximamos da rocha. Ali pronunciou as palavras mágicas e a porta se abriu, vimos então no esconderijo dos ladrões a maior quantidade de tesouro que os meus olhos já puderam ver.

Vi também outra cena horrível, a vovó da chapeuzinho vermelho ser retirada viva da barriga do lobo mal como se fosse um parto cesariano sem anestesia, operado por um caçador brutamontes.
Outro dia, ao caminhar por um deserto e chegar a uma cidadezinha, vi o Barão de Munchausen tentando desengatar  o seu cavalo que ficou  preso na torre  campanário de uma igreja.
“E assim eu vivia sonhando com as histórias das mil e  uma noite”.                        

Estudei no Jardim da infância do grupo escolar Barão do Rio Branco, localizado na Avenida Joaquim Nabuco quase em frente ao Hospital Beneficente Portuguesa com seus jardins bem cuidados  e apinhado de  plantas e mangueiras, onde, ao sair da escola mais cedo, eu e meus colegas de aula colocávamos visgos com leite de jaca para pegar curicas e periquitos barulhentos, ou apanhávamos mangas de bole-bole.

O jardim da infância do meu grupo escolar, era um paraíso  ladeado de muitas flores, plantas ornamentais,  Avencas, Lírios, Rosas, Dálias, as quais a nossa professora mais bonita falava que não arrancássemos as folhas e flores porque  senão as arvorezinhas choravam e ficavam tristes por ter os seus pedaços arrancados. Imediatamente eu construía na minha fantasiosa mente de menino maluquinho, aquelas plantas de narizes e orelhas arrancadas, com lagrimas nos olhos correndo  atrás de nos, querendo nos pegar para se “vingar”. Durava pouco esse pensamento, porque logo a seguir me distraia com a forma divertida das letrinhas desenhadas pelas nossas professoras.As letrinhas tinham mãos e pés, algumas usavam vestidos com flores, outras vestiam roupas e sapatos de meninos e ficavam coladas nas paredes da sala de aula.

Tinha uma menininha muito linda, da minha idade, que sentava na mesma mesa que eu, fazíamos atividades  cobrindo as letras e formando nomes de gente e coisas, estávamos sempre juntos, fabricávamos bonecos e carrinhos com cera de modelar, ela gostava de modelar corações. Um dia moldou um azul outro cor de rosa e disse com aquela voz  linda de criança feliz - Esse é o seu e o meu coração!
Daquele dia em diante me apaixonei muito mais! Hoje lembro dela com muito carinho.
Crescemos!Fui para outra escola, ela se perdeu de mim!
 
Alguns anos depois, quase terminando o equivalente ao ensino fundamental, ganhei um radinho de pilha da marca Hitachi.    Um dia, derrepente começou tocar uma música da época do meu jardim da infância, que dizia assim...

“Que saudades  da professorinha que me ensinou o  Be-a- Ba  /  onde andará ‘ marianinha’    
Meu primeiro amor onde andará?
Eu igual a toda petizada quantas travessuras eu fazia / jogos de botões sobre a calçada
Eu era feliz e não sabia!
Aos domingos missa na matriz /da cidadezinha onde eu nasci
Há meu Deus eu era tão feliz...”
 
As recordações chegam de enxurrada como uma cascata contínua, mas não da pra desaguar tudo aqui, agora!
Quando inicio escrevendo essas memórias, estou sentado em um banco da praça na orla próximo aos mangueirões  de onde a natureza mostra  o rio Amazonas que não para de passar  em frente a essa cidade linda chamada Itacoatiara. Não só a  cidade canção,mas a cidade que me encheu de inspiração e despertou um escritor escondido a tanto tempo nas bancadas de consertos eletrônicos entre transistores, resistores, capacitores e circuitos integrados , mesas e berços  de testes elétricos  nos galpões  das fábricas do distrito industrial de Manaus.

Graças ao Eterno, hoje posso ver essa paisagem linda e um barco que passa molemente sobre as águas no rio, parece que o seu motorista ou o “pratico” esta bastante apaixonado e a música diz no seu radio ou toca CD  “ Que hoje a tempestade já passou e nesse rio de águas calmas eu vou deslizar e consolar meu coração”.
                                                 
                               





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