domingo, 10 de maio de 2015
UM DIA NA ENCHENTE
Um dia na enchente
Rosa neves
Manhã chuvosa, um pouco fria. Ela se espreguiçou na rede e olhou para o lado, em outra rede bem perto, estava a irmã, já acordada, com aquele sorrisinho conhecido. Sorriram uma para a outra, e automaticamente pularam da rede quase ao mesmo tempo, correndo, foram para a janela olhar os pingos de água caindo no rio.
Era tempo de enchente. A água passava por debaixo do assoalho da casa e a correnteza do rio dava a impressão de estar sempre viajando em um barco. A casa era feita de madeira, o assoalho também, com pernas altas, prevenindo as grandes enchentes. As duas irmãs queriam ir para a varanda da casa onde a visão era melhor, lá dava para ver os peixinhos nadando sob a água, tinha uns bem pequenos fugindo dos grandões que queriam devorá-los. Assim como na vida onde também há muitos peixões querendo devorar os peixes pequenos, que vivem lutando para sobreviver neste tempo de grandes “enchentes”.
A varanda era espaço proibido, para elas, pelo perigo de cair na água e se afogar. Seus pais tinham grande preocupação com isso, pois volta e meia sabiam da morte de alguma criança que caindo no rio se afogava. Uma tristeza só.
Os pingos da chuva que incidiam no rio era uma atração à parte para Lalála; assim lhe chamava sua irmã Balila. Eram apelidos carinhosos com que eram chamadas.
Lalála na sua meninice olhava em torno e refletia:
-Tanta água, para quê...?
A água caia do céu, e ao redor era água por toda parte, havia árvores que já estavam submersas, e a correnteza era forte, trazendo e levando coisas sem parar, por debaixo da casa e nas laterais. Ficavam ali apreciando, aquela beleza. Lá vinha um pedaço de pau, descendo rio abaixo e a disputa começava:
- Esse barco é meu!
- Não, é meu!
- Eu vi primeiro!
-Não quero mesmo, esse é feio!- E a peleja continuava.
Naquele dia marcante, a chuva foi afinando, afinando até passar por completo. Haviam dias que chovia o dia todo. A mãe falou:
- É hora de escovar os dentes mocinhas!
Rapidamente pegaram as escovas e foram para a escada, onde mais da metade já estava debaixo da água. Sentaram no degrau e Balila ficou brincando com as mãos dentro da água, derrepente um grito se ouviu, então ela levantou a mãozinha gritando, e atracada com os dentes ao seu dedinho indicador, estava a malvada piranha. O pai-herói correu em seu socorro. Foi uma mordida feia. A mãe fez o curativo. E foi aquela correria, depois que passou o susto, o pai falou:
- Eu vou buscar o leite!
Lalála correu para pegar a caneca de alumínio com alça. Ouviu a irmã soluçando dizer:
- Eu vou também!- Lalála então muito feliz pegou a caneca da irmã. Era uma rotina irem com o pai até a maromba tirar o leite pela manhã. Foram para a canoa, Lalála com lágrimas nos olhos observava Balila que ainda soluçava no resto de choro, queria poder tirar da irmã aquela dor em seu dedinho. E as recomendações da mãe vieram:
-Se assentem bem no meio da canoa, cuidado! Não ponham as mãos na água, não se sujem!
O pai começou a remar e lá foram rumo à maromba.
Maromba é um curral de boi flutuante, com toras grossas de madeira amarradas umas às outras, como jangadas enormes, com tábuas por cima formando uma grande plataforma, ali ficam os bois, cavalos, carneiros, na época de enchentes, até o rio secar outra vez. E nos tempos de seca a maromba virava um lugar perfeito para brincar e para lazer da família.
A maromba da casa de Lalála, estava presa embaixo de árvores, onde o gado podia se proteger do sol forte e desfrutar das sombras.
Antes de chegar à maromba, a passagem pelas ingazeira e árvores mari-mari, era certa! o pai colhia as frutas.
Ao chegar no curral, enquanto o pai tirava o leite, subiram na cerca e ficaram apreciando a visão dos bezerros querendo mamar, andavam de um lado para o outro, uma vaca mugindo, os cavalos relinchando.
Hora da mamada! O pai encheu as canecas, com leite fresquinho e elas tomaram ali mesmo.
Balila olhou para Lalála sorriu e disse:
- Olha o teu bigode branco! Ela já havia esquecido o susto da piranha.
- Ta doendo? – Perguntou Lalála.
–Ta. Respondeu a irmã.
- Papai do céu vai curar, ta bom?- Se abraçaram ali. Uma cuidando da outra. Como selando um pacto de amor. Aquele dia estava sendo marcado na vida delas. As irmãs maiores estavam na cidade estudando. Só voltavam nas férias.
De volta para casa, o pai passou onde havia colocado uma malhadeira e pegou diversos peixes.
Lalála estava preocupada. E agora? A irmã não podia mais fazer nada. Tinha que ficar quietinha com aquele dodói, a mão levantada, para não bater, se apressava o passo, doía.Tinha que andar devagarzinho. Não podiam mais balançar na rede tão alto, como gostavam porque também doía o dedinho. E agora? Correr pela casa também não podia. O dedinho levantado para cima era a novidade do momento.
O que fazer então? Duas crianças cheias de energias presas em uma casa sobre as águas do grande rio Amazonas. Brincar de boneca não podiam, Balila estava impossibilitada de pegar qualquer coisa, cheia de manha. A mãe com cuidado e tanta dó da filhinha mordida pela perigosa piranha, fazia mingaus e chás para Balila.
As crianças da vizinhança chegavam de canoas, eram meninos e meninas a partir de três anos, vinham pegar leite, nas panelas. Às vezes traziam alguma coisa para trocar.
As duas entediadas porque não tinha espaço para andar nem se movimentar muito. Resolveram conversar: E foi o dia de repetir a história da piranha por diversas vezes, e cada vez que elas recomeçavam mais detalhes iam acrescentando.
Lalála disse :
-Tu viu o olhão dela arregalado para mim, dizendo – Eu vou te pegar!
A irmã respondeu:
–Vi. E ela disse para mim:
-Depois que eu te devorar eu vou comer a Lalála e todo mundo da casa, não vou deixar ninguém.
A biografia já estava tão prolongada que a piranha já tinha virado um verdadeiro tubarão. A história da pequena piranha já havia se transformado em uma fábula de terror. Se o pai herói, não fosse mais rápido, e tão forte, ninguém mais existiria naquele “lar-ilha”, e se mãe não fosse tão eficiente no curativo a água estaria toda vermelha de tanto sangue que saía do dodói. O pior! É que se o pai e a mãe não existissem elas estavam perdidas. Bateu um medo no peito, correram rumo a cozinha para perto dos pais. O pai tecia uma tarrafa, a mãe já estava com a mesa pronta para o almoço. Sobre a mesa, bandas de tambaqui assadas cheirando e em uma panela fumaçando uma caldeirada de tucunaré. As pessoas que moravam na casa foram chegando para o almoço. O tio das meninas havia pescado um enorme pirarucu que ia vender no comercial flutuante próximo dali.
No decorrer do almoço o tio foi narrar a pescaria; contou que viu um jacaré de uns cinco metros que quase pegava ele. E as outras pessoas argumentavam;
- Porque não deu um tiro no bicho?
-Se eu matar um jacaré me prendem! Respondeu.
- Mas se ele comer sua perna? Vão prender o jacaré? -Argumentou outra pessoa.
Fazendo mesuras e sem respostas, mudaram de assunto. Depois do almoço foram fazer a sesta.
E o dia foi decorrendo. O pai já havia voltado dos seus trabalhos diários.
A mãe então dirigiu a oração em família como sempre, dizendo:
-Família que ora unida, permanece unida. Depois desse momento o pai como costumeiramente pegou a viola, já com o sol se pondo e cantou uma canção de lamento:
“Se o nordestino fala da seca
Da aspereza do seu chão
Eu falo cá do meu norte
E da sua inundação.
Ah! Eu deixei Maria Rosa
Muitos pés de plantação,
E arribei pra vila da barra
No primeiro regatão
Eu sou gente, que vivo no norte
Lutando com a vida em busca da sorte
Eu sou gente que vivo no norte
Buscando a vida e fugindo da morte”
E assim terminou um dia na enchente...
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