domingo, 10 de maio de 2015

Chico e o mundo




                                                                      Chico e o Mundo

                                                                                                              Gutyerrez filho

Naquele dia o cachorrinho Chico quis ver o mundo. E saiu pelo portão da frente perseguindo uma borboleta azul, que havia pousado em seu nariz enquanto dormia.
Ele vivia bem com os seus irmãos e sua mãe, Lessie, num quintal espaçoso, cheios de árvores, numa casa cheia de jardins na frente. Ele tinha donos maravilhosos que lhe davam carinho, que lhe carregavam no colo, que lhe alimentavam com leite, e até com biscoitos. Mas naquele dia ele quis ver o mundo, e saiu pelo portão da frente. Ele nunca havia chegado tão longe, ele nunca ia pra longe dos irmãos. Chico era diferente. Era agitado. Latia pra cá, pulava pra lá. Puxava briga, puxava o rabo de um aqui, a orelha de outro ali.
Sua mãe sempre apartava as brigas, dando uma lambida, e ele vinha todo manhoso pra perto da mãe. Tinha ciúmes dela. Queria ela só pra ele. Queria o leite dela só pra ele. Queria a tigela de ração só pra ele. Queria tudo só pra ele. Se alguém tentava fazer carinho no seu irmão mais gordinho ele corria pra perto, cutucava uma pedra, pulava de um lado para o outro para chamar atenção para si. Queria todo carinho só pra ele. E mesmo assim. E mesmo tendo tudo só pra si, algo o incomodava. Algo ainda estava faltando. E ele acordava de noite, e saia de fininho de perto do calor dos irmãos e de sua mãe. Saia da sua casinha e ia dar uma volta pelo jardim, olhava as estrelas, deitado na grama, olhava para um lado e para o outro. Queria mais espaço, mais coisas para descobrir, mais coisas pra ver, mais coisas pra morder.
Chico escavava a horta dos donos, espalhava o monte de folhas reunido no quintal, mordia as flores, caçava formigas e besouros, mas rapidamente cansava daquilo e enjoava rápido de todas as outras brincadeiras que ele mesmo inventava. Chico adorava aventuras. Adorava o perigo. E fazia todo dia uma arte diferente, mas mesmo assim, tinha algo errado.
Tinha alguma coisa faltando e ele não sabia o que era. O pequeno Chico queria ver o mundo.
Chico odiava tomar banho, fugia pra não ser pego e para não ir pra dentro da bacia d’água. E se o pegavam, ele gania o tempo todo enquanto lhe ensaboavam e lhe escovavam, e fingia sempre que caia sabão no seu olho, para ganhar mais atenção. Logo depois do banho ele corria para a terra, não esperava que lhe enxugassem. Sacudia-se todo, arrastava-se na grama, na terra e ficava imundo de novo. Lá ia ele pro banho de novo! E dessa vez não deixavam que ele fugisse e o enxugavam com uma toalha enquanto ele reclamava. Em seguida secavam o seu pelo com um secador e ele adorava. Os irmãos morriam de medo do secador, mas ele não. Chico era corajoso.
Sempre foi.
Por isso, saiu pelo portão da frente. E logo esqueceu a borboleta e logo ficou encantado com o mundo lá fora. Aquele grandioso e intrigante mundo que o esperava. Ficou rapidamente eufórico balançando o rabo sem parar, latindo bravamente pra rua muito movimentada com carros, ônibus, caminhões e bicicletas. Logo avistou, ali na calçada, perto de uma lata de lixo, um gato vira-lata, rajado, fuçando atrás de comida.
Perseguiu o gato, que se assustou e atravessou a rua rapidamente. Chico não sabia fazer isso. Ele não sabia atravessar a rua. Mas mesmo assim ele correu atrás do gato. A rua era movimentada, vinha um carro e freou bem a tempo de Chico passar correndo, assustado, para o outro lado da rua. Coração acelerado, e apavorado com aquela freada brusca, Chico não sabia mais como voltar. A rua era muito movimentada. As pessoas que passavam ali, na calçada tentaram pegá-lo, mas ele correu latindo. Fugiu! Fugiu daqueles estranhos. A borboleta azul onde estava? O gato rajado onde estava? E Chico onde estará agora?
Passou um dia. Dois dias. Três dias. Passou uma semana. Um mês. Chico não voltou mais pra casa. Quem esqueceu o portão da frente aberto? Os donos de Chico ficaram tristes. Seus irmãos ficaram tristes. Sua mãe, Lessie, chorou triste. Onde estará o Chico? Onde estará?
Nesse momento está chovendo muito lá fora.
As noites são muito frias lá fora. Chico está com frio? Chico está protegido da tempestade? Chico terá arranjado algum amigo? Chico está com medo? Não. Não dá pra imaginar ele com medo. Ele é muito corajoso. Sempre foi. Ele adorava o perigo.
Ele era tão valente. Mas será que um dia ainda vai voltar pra casa? Será que está sozinho? Terá arranjado um novo lar? Por onde anda o Chico?
Chico abandonou o quintal onde morava e agora tudo está tão calmo. Tudo está tão calmo na casinha, na horta. Tudo está tão sem alegria. Os seus irmãozinhos às vezes têm a impressão que de uma hora pra outra ele vai aparecer, abanando o rabo e correndo agitando tudo de novo. Mas talvez isso nunca mais aconteça. Talvez nunca mais ele seja visto de novo. Ele levou consigo toda sua alegria naquele dia, quando saiu pelo portão da frente.
E tudo o que queria era ver o mundo.



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