sábado, 16 de maio de 2015
As sombras do seringal
AS SOMBRAS DO SERINGAL
Gutyerrez Oliveira
Naquela noite tudo estava muito mais escuro do que nas outras noites. Os homens não podiam ver nada do lado de fora do barracão. A chuva parecia não ter fim, destilava por cima das árvores de seringueiras caindo gota a gota nas folhas encharcadas.
Dentro do barraco como isolados do mundo, os seringueiros viam o que mostrava a lamparina com o vento remexendo as sombras assombradas da noite na parede. No terreiro, um frio de gelo. Mas, por cima das árvores, no meio de toda aquela escuridão um olho muito grande e amortalhado pairava por cima da palhoça vendo e observando os homens frágeis que pitavam suas parroncas de tabaco para espantar os carapanãs. A terra tremia, com zoadas de trovão e no negrume da noite riscavam raios rápidos em ziguezagues de relâmpagos que iluminavam a noite medonha, mostrando como num flash a silhueta das arvores . O olho aproximava-se mais daquele barraco no meio das trevas do seringal.
O homem na rede, doente de malária, ardendo em febre. A floresta tremia dentro dele... O delírio era maior que a vontade de viver, e a morte se aproximava bem devagarzinho na forma, na figura do rosto de sua mãe. E ele conversava falando com ela no meio de toda aquela escuridão, pedindo que trouxesse alguma poronga para acender e expulsar aquelas trevas, que devagar, bem devagarzinho [...] estavam entrando, invadindo suas entranhas e tomando conta de sua vida.
– Mãe... mãe ... -ele chamava esperançoso...
A morte lhe sorria bondosa.
– Mãe... mãe ... É você?
E ela apenas sacudia a cabeça sorrindo, confirmando ...
– Mãe, por favor, traz uma lamparina ! Para afastar essa escuridão que esta me penetrando.
E a febre aumentando. E a febre aumentando.
Fazia frio de água da cacimba á boca da noite. Mas ele suava, junto com as nuvens da tempestade. No delírio, aquelas vozes nas sombras da parede contavam tantas histórias! Ele lembrava ...
Contavam a história da mãe da seringa, que cansada de ver suas filhas árvores escorrendo seu leite, colocava á noite um pedaço de espírito mau na rede dos seringueiros, e os deixava doente.
Os mais velhos contavam a historia e aguardavam com esperança de que um dia eles voltariam pra casa e seriam como heróis na sua terra natal. Tudo mentira! Tudo mentira! Eles jamais voltariam daquele lugar.
Os deuses da floresta estavam raivosos, eles estavam nos temporais e nos relâmpagos, e sem misericórdia alguma, se escondiam debaixo das folhagens para pular de emboscada na roupa do seringueiro, que indo para sua casa, sem perceber, se escondiam em sua rede de dormir para perturbá-lo á noite com terríveis pesadelos.
A casa de palha e a terra tremiam devido aos trovões.
E aquele homem continuava a conversar com sua mãe, ouvindo o pio funesto de uma coruja agourenta, e o gargalhar de um rasga mortalha conversando com sua morte em forma de sua mãe, vestida de mortalha roxa – respondia da cabeceira da sua rede para a coruja que se acalmasse, pois em breve ela teria seu defunto. Não tive-se pressa!
– Mãe... Mãe... Com quem você está conversando?
E a morte apenas lhe sorria bondosa.
O pio daquela coruja parecia uma contagem regressiva para o abandono da vida. Fazia tanto frio, frio de argila molhada no corpo. A febre ardia tanto. A agonia era tanta. O delírio era tanto, que ele preferia que o sono chegasse logo dentro de toda aquelas trevas, naquela hora noturna, soturna da noite!
De repente, no meio da febre, entre a visão da morte e da vida que minguava, escorrendo sonolenta entre os seus olhos, aquele homem soube que a sua rede tão companheira de descanso assim como a rede de todos os outros seus companheiros lhe serviria de caixão, seria o seu derradeiro invólucro para o apartamento apertado de cova da terra fria , por isso gritou num delírio de ultima angustia
–Mãe, não posso me embrulhar... Esse lençol me apavora...
E a morte lhe pegou no colo sorridente e bondosa e o balançava consolando!
Cantando baixinho uma canção de ninar!
“Meu filho, não chores senão o dia vai custar a vir. Não vai doer nada , porque morrer não dói, reza três ave-marias, entrega-te, muda a tua roupa pra dormir, veste a pijama de mortalha, pois a coruja já parou de piar, agora você já pode dormir.”
Ele olha então com um olhar já sem brilho pra morte, sua mãezinha bondosa e vê o rosto, a sua mãe sorrindo...
Ele sorri também... Compreensivo... Resignado... Concorda ficar em seus braços...
Ela tão bondosa... Seus olhos nos olhos dele...
Sorri dizendo – Não chores, não vai doer nada!
A chuva continuava destilando gota a gota sobre as folhas encharcadas. A terra parou de tremer dentro daquele homem.
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