domingo, 10 de maio de 2015

Sonhos de lata




                                                             SONHOS DE LATA              
                                       
                                                                                                              Gutyerrez Oliveira



A mulher entrou na sala e viu o seu companheiro de malas prontas, varias bolsas de viagem arrumadas, pronto pra partir. Ela estranhou aquilo.
-Vai viajar?
-Não- disse ele frio como sempre.
-O que são essas malas então?
-Eu estou indo embora!
-Como assim indo embora?
Então ele começou:
-O que eu vou lhe dizer agora vai soar como uma desculpa esfarrapada, mas não é nada disso. Eu tenho aqui um cheque de um milhão de dólares oferecido pela Empresa X. Por danos morais ou por qualquer outro tipo de danos devido à experiência que você foi submetida
-Como assim, do que está falando?
-Assine aqui - pediu o marido lhe dando um papel um cheque e uma caneta
A mulher segurou a caneta e tentou ler as letras miúdas e ele continuou:
- Estou indo embora porque não sou como você. Entenda, digo isso em todos os sentidos. E no sentido literal da palavra. Eu não posso sentir como você sente, não posso sorrir como você, ficar alegre, ficar com raiva ou ter medo. Quando eu ajo de tal forma, na verdade tudo não passa de simulações feitas a partir da minha programação.
A mulher já não lia mais nada e prestava atenção estupefata nas palavras do marido.
-Eu não estou entendendo Marcos? Há outra mulher, entre a gente, é isso?
-Não, não é isso
-É um homem então?
-Não. Você não está entendendo!
-Não, não estou! Por favor, me explique! Isso é alguma brincadeira? Porque se for, eu já cai na pegadinha ouviu? Por quê? Por que você está me deixando Marcos?
-Eu não sou humano como você Marta!...
-O quê?Não acredito no que ouço!
- Sim Marta! Eu sei que é difícil mas, eu sou um protótipo especial  de engenharia robótica  da   Empresa X, acho que você  já deve ter visto nos comerciais. A empresa X  trabalha com tecnologia de eletrodomésticos.
-Eu sou um Autômato. Fui criado secretamente, sou uma máquina que simula emoções. Pertenço a uma série de quinhentos protótipos para teste enviados para interagir com a sociedade. Aparentemente temos todas as funções humanas, mas se você prestasse bem atenção perceberia que  eu nunca usava o banheiro, ou me alimentava.
-Você esta dizendo que é um robô? Isso é ridículo, Marcos! Não me faça de palhaça, se está arrependido de ter vindo morar comigo não precisa usar essa desculpa idiota para ir embora! Eu nunca te pressionei a nada. Aquela conversa de ontem a noite sobre casamento foi só uma conversa como qualquer outra Marcos! Eu não estou te pressionando a nada! Você está se sentindo pressionado é isso? Não precisamos casar droga! Eu só toquei no assunto e...
Marcos então começou a emitir vários barulhos mecânicos, alarmes sonoros e intermitentes, girou o pescoço em trezentos e sessenta graus como a mulher possessa do filme  O exorcista.
-Mas o que...
-É o que estou tentando lhe explicar Marta. Você ajudou involuntariamente a Empresa X no teste dos protótipos, durante esses três meses que estive com você. Por isso está sendo indenizada. Quando eu ia para o trabalho, na verdade eu ia até a unidade laboratorial da empresa localizada nessa área aonde era feito manutenções em mim. Assine esse papel, se você  sentiu-se  prejudicada sentimentalmente ou moralmente, você será indenizada pela Empresa X, Marta.
Marta chorava, chorava e não queria ser consolada.  Nem mais saber de nada.
- Eu assino! - soluçava ela!- Apenas vá embora daqui sua máquina sem sentimentos! A Empresa X usa as pessoas! Usa o sentimento das pessoas pra crescer! Que tipo de empresa é essa?
- Devido à competição em alta escala que está havendo entre a nossa empresa e a Empresa Y, que também teve a mesma idéia de fazer protótipos cibernéticos!  Por isso tivemos que tomar tal atitude! A Empresa Y também fabricou protótipos, Marta. E eles podem estar em qualquer lugar nesse momento fingindo serem pessoas. Não podemos deixar que a empresa Y ganhe a concorrência da nossa empresa. Temos que aperfeiçoar os protótipos em relações pessoais o quanto antes. Pra isso que fui programado.
- Então todos aqueles nossos sonhos de viajar pra Nova York, Londres, aquilo foi tudo mentira? – dizia ela ainda olhando para o robô esperando que tudo aquilo não passasse de uma pegadinha do Faustão.
- Sinto muito senhorita, mas “latas” não têm sonhos!
- Disse o robô, referindo-se a si mesmo.
E antes de partir certificou-se de que  Marta assinaria o papel e teria aceito o cheque. Partiu para sempre dali, com todas as malas de roupa e com todo o amor e tempo que Marta havia investido.
Depois disso Marta permaneceu sozinha chorando na sala por algum tempo. Alguns minutos depois ela foi até a porta  certificar-se que o marido-robô havia mesmo ido embora, então quando percebeu que estava sozinha limpou as falsas lágrimas e sorriu.
-Há! Há! Há! Que idiota! - gargalhou ela olhando o cheque e o papel assinado de indenização.
-“Latas não tem sonhos!”. Você é que pensa! Eu vou  para Nova York com esse hum milhão de dólares - disse ela. – Mas antes preciso ajeitar essa engrenagem aqui!
Dizendo isso ela foi para um quartinho secreto escondido, incrustado na parede,    onde havia uma mala com  ferramentas especiais  de alta tecnologia ,  retirou de lá uma chave especifica  e começou a desapertar um parafuso do seu braço. Em seguida girou o pescoço em trezentos e sessenta graus certificando que suas engrenagens estavam boas ou precisavam de óleos. Depois retirou seu braço  de fibra  eletro- mecânico  pingou óleo e uma graxa especial  nas engrenagens aonde havia o emblema de marca  de fabricação  da Empresa Y.



                           


Um comentário: